Dependência

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Outra concepção muito comum sobre o amor é a idéia de que dependência é amor. Trata-se de uma concepção errônea com a qual os psicoterapeutas precisam lidar diariamente. Seu efeito é visto de forma mais dramática quando um indivíduo tenta ou ameaça suicidar-se, ou se toma incapacitantemente deprimido reagindo à rejeição ou separação de um cônjuge ou amante. Essa pessoa diz: “Não quero, não consigo viver sem meu marido [mulher, namorada, namorado]. Eu o [a] amo tanto!” E quando eu respondo, como freqüentemente faço, “Você está errado [a], não ama seu marido [mulher, namorada, namorado] “, a resposta irritada é: “Como assim? Acabei de dizer que não posso viver sem ele [ela].” Eu tento explicar: “O que você está descrevendo é parasitismo, não amor. Quando você precisa de outra pessoa para sobreviver, é um parasita dela. Não há escolha nem liberdade envolvida em seu relacionamento. É uma questão de necessidade, e não de amor. O amor é o livre exercício da escolha. Duas pessoas só se amam quando são capazes de viver sem o outro mas escolhem viver juntas.”
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Defino a dependência como a incapacidade de experimentar a totalidade ou funcionar adequadamente sem a certeza de que o outro está realmente cuidando de nós. Em adultos fisicamente sadios, a dependência é patológica – doentia, sempre uma manifestação de uma doença ou falha mental. Deve ser distinguida do que comumente chamamos de necessidades ou sentimentos de dependência. Todos nós – mesmo quando fingimos para os outros e nós mesmos que não – temos necessidades e sentimentos de dependência. Todos nós queremos ser mimados, nutridos, cui¬dados por pessoas mais fortes do que nós que realmente se preocupam conosco – e sem ter que fazer o menor esforço. Não importa o quanto somos fortes, dedicados, responsáveis e adultos, se olharmos atentamente para nós mesmos descobriremos o desejo de que cuidem de nós, para variar. Por mais velhos e maduros que sejamos, buscamos e gostaríamos de ter em nossas vidas figuras maternas e paternas satisfatórias. Mas, para a maioria de nós, esses desejos não são dominantes; não são o tema central de nos¬sa existência. Quando eles realmente dominam nossa vida e ditam a qualidade da nossa existência, temos algo mais do que apenas necessidades ou sentimentos de dependência: somos dependentes. Especificamente, uma pessoa cuja vida é dominada e ditada por necessidades de dependência, sofre de uma desordem psíquica diagnosticada como “desordem de personalidade dependente passiva”, talvez a desordem psiquiátrica mais comum.
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Esses indivíduos – os dependentes passivos – estão tão ocupados tentando ser amados que não lhes resta energia para amar. São como pessoas esfomeadas, procurando alimento onde podem, e sem ter alimento para oferecer aos outros. É como se fossem vazias por dentro, um poço sem fundo que nunca pode ser totalmente preenchido. Nunca estão “satisfeitas” ou têm uma sensação de plenitude. Sempre acham que “algo está faltando”. Não suportam a solidão. Devido à sua falta de totalidade, não possuem um verdadeiro senso de identidade e se definem apenas por seus relacionamentos.
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Um operador de prensa de perfuração, trinta anos de idade, extremamente deprimido, veio me ver três dias depois de sua mulher tê-lo abandonado, levando seus dois filhos. Ela já ameaçara ir embora três vezes, reclamando da sua total falta de atenção para com ela e as crianças. Em todas essas vezes ele lhe havia implorado para ficar e prometera mudar, mas sua mudança nunca durava mais do que um dia – e daquela vez ela cumprira a ameaça. Ele não dormia há duas noites e tremia de ansiedade. As lágrimas escorriam por seu rosto e pensava seriamente em suicídio.
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– Não posso viver sem minha família -, disse, chorando. – Eu amo muito todos eles.
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– Estou perplexo – respondi. – Você me disse que as queixas da sua mulher eram válidas, que nunca fez nada por ela, que só ia para casa quando queria, que não estava interessado nela sexual ou emocionalmente, que ficava meses a fio sem falar com as crianças, que nunca brincava com elas ou as levava a parte alguma. Você não tem relação alguma com as pessoas da sua família, por isso não entendo porque está tão deprimido com a perda de um relacionamento que nunca existiu.
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– Você não entende? – ele replicou. – Não sou nada agora. Nada. Não tenho mulher. Não tenho filhos. Não sei quem sou.
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Posso não me importar com eles, mas preciso amá-los. Não sou nada sem eles.
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Como ele estava muito deprimido – tendo perdido a identidade que sua família lhe dava – marquei uma nova consulta para dois dias depois. Não esperava grandes melhoras. Entretanto, quando ele voltou, entrou no consultório sorrindo alegremente e anunciando:
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– Está tudo bem agora.
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– Você voltou a viver com a sua família? – perguntei.
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– Ah, não – respondeu sorrindo. – Não tenho notícias deles desde que estive aqui. Mas ontem à noite conheci uma garota no bar que freqüento. Ela disse que realmente gosta de mim. É separada, como eu. Marcamos um novo encontro esta noite. Eu me sinto humano de novo. Acho que não preciso mais me consultar com você.
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Essas mudanças rápidas são típicas dos dependentes passivos. Não importa de quem eles dependem, desde que haja alguém de quem depender. Não importa qual é sua identidade, desde que haja alguém para fornecê-la. Conseqüentemente, seus relacionamentos, embora pareçam dramáticos em sua intensidade, são na verdade extremamente superficiais. Devido à sua forte sensação de vazio interior e ânsia de preenchê-lo, os dependentes passivos não adiam a satisfação da sua necessidade de outras pessoas.
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Uma jovem bonita, inteligente e saudável tivera, dos dezesseis aos 21 anos, uma série quase interminável de relacionamentos sexuais com homens invariavelmente inferiores a ela em termos de inteligência e capacidade. Ela passava de um perdedor para outro. Descobrimos que o problema era que não conseguia esperar o bastante para procurar um homem adequado, ou até mesmo escolher entre os muitos homens quase que imediatamente disponíveis. Vinte e quatro horas depois de terminar um relacionamento, paquerava o primeiro homem que conhecia em um bar e comparecia à próxima sessão de terapia tecendo-lhe elogios. “Sei que ele está desempregado e bebe demais, mas é muito talentoso e realmente gosta de mim. Sei que este relacionamento vai dar certo.”
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Mas nunca dava certo. Não só porque ela não sabia escolher, como também porque seguia um padrão de grudar-se no homem, exigindo provas da sua afeição e sua presença constante, recusando-se a ficar só. “Não suporto estar longe de você porque te amo muito”, dizia-lhe, mas cedo ou tarde ele se sentia totalmente su¬focado e aprisionado pelo seu “amor”. O resultado era uma vio¬lenta explosão, o fim do relacionamento e o recomeço do ciclo no dia seguinte. Esta mulher só conseguiu quebrar esse ciclo depois de três anos de terapia, nos quais passou a apreciar sua própria inteligência e qualidades, a identificar e a distinguir seu vazio e sua ânsia do genuíno amor, a perceber como a sua fome a estava levando a iniciar e manter relacionamentos prejudiciais e a aceitar a necessidade da mais rígida disciplina sobre sua ansiedade para tirar partido dos seus dons.
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No diagnóstico, a palavra “passivo” é usada conjuntamente com a palavra “dependente” porque essas pessoas se preocupam com o que os outros podem fazer por elas, e não com o que elas próprias podem fazer aos outros. Certa vez, trabalhando com um grupo de cinco pacientes solteiros – todos dependentes passivos -, pedi que falassem sobre seus objetivos. Como gostariam de estar dali a cinco anos? De um modo ou de outro, todos responderam: “Quero me casar com alguém que realmente se importe comigo.” Ninguém falou em ter um emprego interessante, criar uma obra de arte, contribuir para a comunidade, ser capaz de amar alguém ou até mesmo ter filhos. A idéia de esforço não estava envolvida em seus devaneios; só visualizavam um estado passivo de recepção de afeto. Na ocasião, disse a esses pacientes, como digo a tan¬tos outros: “Se o objetivo de vocês é ser amados, não vão conseguir.
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O único modo garantido de ser amado é ser digno de amor, e vocês não podem ser dignos de amor quando seu principal objetivo na vida é ser amados passivamente.” Isso não significa que as pessoas dependentes passivas nunca façam coisas pelos outros, mas sua principal motivação para fazê-las é consolidar o apego dos outros a elas, garantindo assim sua própria proteção. E quando a possibilidade de afeto do outro não está diretamente envolvida, elas têm grande dificuldade em “fazer coisas”. Todos os membros desse grupo acharam extremamente difícil comprar uma casa, separar-se dos pais, arranjar um emprego, deixar um trabalho antigo ou até mesmo dedicar-se a um hobby.
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No casamento normalmente há uma diferenciação dos papéis dos dois cônjuges, uma divisão de trabalho que costuma ser eficiente. Em geral a mulher cozinha, limpa a casa, faz as compras e cuida dos filhos; o homem tem um emprego, cuida das finanças, apara a grama e faz reparos. Os casais sadios trocam instintivamente de papéis de vez em quando. O homem pode cozinhar uma vez ou outra, passar um dia da semana com os filhos, limpar a casa para surpreender a mulher; ela, por sua vez pode arranjar um trabalho de meio expediente, aparar a grama no aniversário do marido ou cuidar dos cheques e das contas durante um ano. Muitas vezes o casal considera essa troca de papéis um tipo de jogo que traz sabor e variedade para o casamento. É verdade, mas talvez o mais importante (até mesmo quando realizado de maneira inconsciente) seja o fato de esse processo diminuir a dependência mútua. De certo modo, cada cônjuge faz uma espécie de treinamento de sobrevivência para o caso de perder o outro. Para os dependentes passivos, no entanto, a perspectiva de perder o outro é tão assustadora que não conseguem encarar a preparação para isso, ou tolerar um processo que reduziria a dependência ou aumentaria a liberdade do outro. Conseqüentemente, uma de suas características marcantes é que sua diferenciação de papéis é rígida. Em vez de diminuir eles tentam aumentar a dependência mútua, tornando o casamento mais parecido com uma prisão. Ao fazer isso – em nome do que chamam de amor, mas que na realidade é dependência – limitam sua própria liberdade e estatura, assim como as do outro.
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Ocasionalmente, como parte desse processo, os dependentes passivos desistem de habilidades que possuíam antes do casamento. Um exemplo muito comum é a síndrome da mulher que “não consegue” dirigir. Na metade dos casos, ela pode nunca ter dirigido; mas na outra metade, algumas vezes após um pequeno acidente, ela desenvolve uma “fobia” de dirigir – em algum ponto após o casamento – e pára de guiar. O efeito dessa “fobia” em áreas rurais e suburbanas, onde moram muitas pessoas, é tornar a mulher quase que totalmente dependente do marido e prendê-lo a ela pela sua incapacidade. Agora ele deve fazer todas as compras para a família – ou então levá-la para o supermercado. Como em geral esse comportamento satisfaz as necessidades de dependência de ambos, quase nunca os casais o consideram doentio ou ao menos um problema a ser resolvido. Quando sugeri a um banqueiro – extremamente inteligente em outras questões – que sua mulher, que subitamente parara de dirigir aos 46 anos devido a uma “fobia”, poderia ter um problema digno de atenção psiquiátrica, ele retrucou: “Ah, não, o médico lhe disse que era por causa da menopausa, e que nada poderia ser feito quanto a isso.” A mulher se sentia segura sabendo que o marido nunca a deixaria ou teria uma amante, porque estava ocupado demais depois do trabalho, levando-a às compras e transportando os filhos. O marido se sentia seguro sabendo que a mulher nunca o deixaria ou teria um amante, porque não tinha mobilidade para encontrar pessoas quando ele estava longe. Através desse comportamento, os casamentos de dependência passiva podem se tornar duradouros e seguros, mas não ser considerados sadios ou genuinamente amorosos, porque a segurança é obtida à custa da liberdade e o relacionamento serve para retardar ou destruir o crescimento de cada parceiro. Costumo dizer aos casais que “um bom casamento só pode existir entre duas pessoas fortes e independentes”.
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A dependência passiva se origina de uma falta de amor. A sensação de vazio que atinge esses dependentes é um resultado direto da incapacidade de seus pais de satisfazer suas necessidades de afeto, atenção e carinho durante a infância. Na primeira parte desse livro mencionei que as crianças amadas e protegidas com relativa constância durante toda a infância entram na idade adulta com um sentimento profundo de que são valiosas e dignas de amor e, portanto, serão amadas e protegidas enquanto permanecerem fiéis a si mesmas. Já as crianças que crescem em uma atmosfera em que o amor e o carinho são raros ou estão ausentes, tomam-se adultos sem essa força interior. Em vez disso, têm uma sensação de insegurança, de “não ter o bastante”, de que o mundo é imprevisível e frio e de que seu valor e seu direito de serem amadas são duvidosos. Portanto, não é de admirar que essas pessoas sintam necessidade de agarrar o amor, o cuidado e a atenção onde quer que os encontrem, com um desespero que as leva a ter um comportamento manipulador, maquiavélico e sem amor, que destrói os mesmos relacionamentos que tentam preservar.
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Como também já dissemos na parte anterior, o amor e a discipli¬na caminham de mãos dadas, de modo que pais sem afeto e carinho são pessoas sem disciplina, e quando não conseguem oferecer aos filhos a sensação de que são amados, tampouco lhes oferecem a capa¬cidade de autodisciplina. Assim, a dependência passiva é apenas a principal manifestação de uma desordem de personalidade. Os dependentes passivos não têm autodisciplina. Não estão dispostos ou não são capazes de adiar a gratificação de sua fome de atenção. Em seu desejo desesperado de criar e manter vínculos, deixam de lado a honestidade. Apegam-se a relacionamentos deteriorados quando deveriam renunciar a eles. Mais importante ainda, não se sentem responsáveis por si mesmos. Fazem passivamente dos outros, muitas vezes até dos próprios filhos, a fonte de sua felicidade e realização; portanto, quando não estão felizes ou realizados, basicamente acreditam que os outros são os responsáveis. Por isso estão sempre zangados, sempre se decepcionando com os outros, que na verdade nunca satisfazem suas necessidades nem são capazes de fazê-los felizes. Tenho um colega que costuma dizer: “A pior coisa que você pode fazer é se permitir ser dependente de outra pessoa. É melhor ser dependente de heroína. Enquanto houver uma dose, ela nunca o decepcionará. Enquanto estiver presente, fará você feliz. Mas se você esperar que outra pessoa lhe traga felicidade, acabará sempre desapontado.” Na verdade, não é por acaso que a perturbação mais comum que os dependentes passivos manifestam – além dos relacionamentos – é a dependência de drogas e álcool. Eles têm uma “personalidade viciável”. Viciam-se em pessoas, sugando-as e consumindo-as, e quando elas não estão disponíveis para lhes servir, freqüentemente usam a garrafa, a agulha ou a pílula como substitutos.
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Em resumo, a dependência pode parecer amor porque faz as pessoas se agarrarem fortemente umas às outras. Mas na verdade não é amor, e sim uma forma de antiamor, que nasce de uma inca¬pacidade dos pais de amar. Uma incapacidade que se perpetua e quer receber em vez de dar; alimenta o infantilismo e não o crescimento. Esforça-se para aprisionar e conter em vez de liberar. Acaba destruindo indivíduos e relacionamentos em vez de fortalecê-los.
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck
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