Como já disse, pacientes que recorrem à psicoterapia invariavelmente se encontram de certa forma confusos quanto à natureza do amor. Isso porque, devido ao seu mistério, há muitas concepções errôneas sobre o amor. Embora este livro não vá roubar-lhe o mistério, espero que seja capaz de esclarecer algumas questões que ajudem a eliminar essas concepções equivocadas que causam sofrimento não só aos pacientes, mas também a todas as pessoas que tentam compreender suas próprias experiências. Parte desse sofrimento me parece desnecessária, já que essas fantasias do amor poderiam se tornar menos populares através do ensino de uma definição mais precisa do amor. Por isso, decidi começar a explorar a natureza do amor examinando tudo o que ele não é.

A amor não é…

“Apaixonar-se”

DE TODAS AS CONCEPÇÕES ERRÔNEAS, a mais poderosa e insidiosa é aquela que afirma que a paixão é sinônimo de amor – ou, pelo menos, uma de suas manifestações. É poderosa, porque a paixão é experimentada subjetiva e intensamente como amor. Quando uma pessoa se apaixona, o que ele ou ela certamente sente é “eu o amo” ou “eu a amo”. Só que dois problemas se tomam imediatamente visíveis. O primeiro é que a experiência da paixão é especificamente erótica. Não nos apaixonamos por nossos filhos, embora possamos amá-los profundamente. Não nos apaixonamos por amigos do mesmo sexo – a não ser que sejamos homossexuais -, embora possamos gostar muito deles. Só nos apaixonamos quando temos consciente ou inconscientemente uma motivação sexual. O segundo problema é que a experiência da paixão é invariavelmente temporária. Não importa por quem nos apaixonamos, se o relacionamento durar, cedo ou tarde nos desapaixonaremos. Isso não significa que sempre deixamos de amar a pessoa por quem nos apaixonamos, mas que o êxtase que caracteriza a paixão acaba. A lua-de-mel sempre termina. O romance perde o brilho.
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Para compreender a natureza do fenômeno da paixão e a inevitabilidade do seu fim, é necessário examinar o que os psiquiatras chamam de fronteiras do ego. Pelo que podemos constatar—através de evidências indiretas, nos primeiros meses de vida o recém-nascido não distingue entre si mesmo e o resto do universo. Quando move braços e pernas, o mundo se move. Quando tem fome, o mundo também tem. Quando vê sua mãe se movendo, é como se ele estivesse se movendo. Quando sua mãe canta, o bebê não sabe que não é ele quem está produzindo o som. Ele não consegue se distinguir do berço, do quarto e dos pais. O animado e o inanimado são a mesma coisa. Ainda não existe distinção entre “eu” e “você”. Ele e o mundo são um só. Não há fronteiras, separações. Não há identidade.
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Com o tempo a criança começa a se experimentar como uma entidade separada do resto do mundo. Quando tem fome, a mãe nem sempre aparece para alimentá-la. Quando quer brincar, nem sempre a mãe está disposta. Então a criança percebe que seus desejos não são ordens para a mãe, que sua vontade é algo distinto do comportamento dela. Começa a surgir uma noção do “eu”. Acredita-se que essa interação entre mães e filhos é a base sobre a qual a noção de identidade da criança começa a ser construída. Foi observado que quando a interação entre eles é gravemente perturbada – por exemplo, quando não há mãe nem uma substituta satisfatória, ou quando a mãe, devido à sua própria doença mental, é totalmente negligente ou desinteressada – o bebê se toma uma criança ou um adulto cujo senso de identidade apresenta as falhas mais básicas.
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À medida que o bebê percebe que sua vontade é apenas dele e não do universo, começa a fazer outras distinções entre si mesmo e o mundo. Quando tem vontade de se mover, seu braço balança diante dos seus olhos, mas nem o berço nem o teto se movem. Assim, aprende que seu braço e sua vontade estão ligados, e que portanto seu braço pertence a ele, não é algo externo ou de outra pessoa. Dessa maneira, durante o primeiro ano de vida, aprendemos os fundamentos de quem ou o que somos ou não. No final do nosso primeiro ano, sabemos que o braço, o pé, a cabeça, a língua, os olhos e até mesmo o ponto de vista, a voz, os pensamentos, a dor de barriga e os sentimentos nos pertencem. Conhecemos nosso tamanho e nossos limites físicos. Esse conhecimento é o que chamamos de fronteiras do ego.
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O desenvolvimento dessas fronteiras é um processo que continua através da infância, durante a adolescência e até mesmo, na idade adulta, mas os limites estabelecidos posteriormente são mais psíquicos do que físicos. Por exemplo, a idade entre dois e três anos é tipicamente um período em que a criança aceita os limites do seu poder. Embora já tenha aprendido que seu desejo não é necessariamente uma ordem para a mãe, ainda se apega à possibilidade de que poderia ser e ao sentimento de que deveria ser. É devido a essa esperança e a esse sentimento que a criança de dois anos geralmente tenta agir como um tirano e autocrata, dando ordens aos pais, aos irmãos e aos animais de estimação como se fossem soldados rasos de seu exército particular, e reagindo com uma fúria real quando não é atendida. Por isso, os pais referem-se a essa idade como “os terríveis dois anos”. Aos três anos a criança geralmente se tomou mais tratável e tranqüila como um resultado da aceitação da realidade de sua relativa impotência. Ainda assim, a possibilidade da onipotência ainda é um sonho tão agradável que não pode ser completamente abandonado, mesmo depois de anos de doloroso confronto com a própria impotência. Embora a criança de três anos tenha passado a aceitar a realidade dos limites do seu poder, durante alguns anos continuará ocasionalmente fugindo para um mundo da fantasia em que a possibilidade da onipotência (particularmente a sua) ainda existe. É o mundo do Super-Homem e do Capitão Marvel. No entanto, gradualmente, até mesmo os super-heróis são abandonados. No meio da adolescência os jovens já sabem que são indivíduos, presos aos limites do próprio corpo e poder, cada um deles um organismo relativamente frágil e impotente, existindo apenas através da cooperação de um grupo de semelhantes organizados em sociedade. Dentro desse grupo eles não se distinguem particularmente, mas são separados uns dos outros por suas identidades, fronteiras e limites individuais.
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É solitário estar dentro dessas fronteiras. Algumas pessoas – particularmente aquelas que os psiquiatras chamam de esquizóides -, devido a experiências desagradáveis e traumáticas na infância, consideram o mundo exterior irremediavelmente perigoso, hostil, confuso e insatisfatório. Acham que suas fronteiras as protegem e confortam, e encontram segurança na solidão. Mas a maioria de nós acha a solidão dolorosa e deseja fugir da muralha da identidade individual para poder se sentir mais unido com o mundo externo. A experiência de se apaixonar nos permite essa fuga – temporariamente. A essência do fenômeno da paixão é um súbito colapso de parte das fronteiras do ego de um indivíduo, que lhe permite unir sua identidade à de outra pessoa. A repentina libertação do indivíduo de si mesmo, a explosiva fusão com a pessoa amada e o grande alívio da solidão que acompanham esse colapso são experimentados pela maioria de nós como um êxtase. Nós e a pessoa amada somos um só! A solidão acabou!
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Em alguns aspectos (mas certamente não em todos), o ato de se apaixonar é um ato de regressão. A experiência de se fundir com a pessoa amada faz eco ao tempo em que estávamos unidos com nossas mães. Junto com a fusão, voltamos a experimentar a sensação de onipotência abandonada na infância. Tudo parece possível! Unidos à pessoa amada achamos que podemos superar todos os obstáculos. Acreditamos que a força do nosso amor subjugará e fará sumir nas trevas as forças da oposição. Todos os problemas serão resolvidos. O futuro será só alegria. A irrealidade desses sentimentos é basicamente a mesma da criança de dois anos que acha que é o rei da família e do mundo, com poderes ilimitados.
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Assim como a realidade invade a fantasia de onipotência da criança de dois anos, invade a unidade fantástica do casal apaixonado. Mais cedo ou mais tarde, como uma reação aos problemas do dia-a-dia, o indivíduo se reafirmará. Ele quer fazer sexo; ela não. Ela quer ir ao cinema; ele não. Ele quer depositar dinheiro no banco; ela quer uma lava-louças. Ela quer falar sobre seu trabalho; ele quer falar sobre o dele. Ela não gosta dos amigos dele; ele não gosta dos amigos dela. Então os dois, no fundo de seus corações, chegam à terrível conclusão de que eles e a pessoa amada não são um só, que ela – ou ele – ainda continuará a ter seus próprios desejos, gostos, preconceitos e momentos diferentes dos seus. Uma a uma, gradual ou subitamente, as fronteiras do ego são restabelecidas – e eles se desapaixonam. Mais uma vez são dois indivíduos separados. E nesse ponto que eles começam a romper os laços do relacionamento ou dão início ao trabalho que constrói o verdadeiro amor.
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Ao usar a palavra “verdadeiro”, quero dizer que, quando estamos apaixonados, a percepção de que estamos amando é falsa. Nossa sensação subjetiva de amar é uma ilusão. A elaboração plena do verdadeiro amor será deixada para o final desta parte. Contudo, ao afirmar que quando um casal se desapaixona pode realmente começar a amar, também quero dizer que o verdadeiro amor não se origina de uma sensação de amor. Pelo contrário, freqüentemente ocorre em um contexto em que esta sensação está ausente, quando agimos amorosamente apesar de não nos sentirmos amorosos. Se aceitamos a nossa definição inicial do amor, a experiência de “apaixonar-se” não é – pelas várias razões que veremos a seguir – o verdadeiro amor.
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Apaixonar-se não é um ato da vontade. Não é uma escolha consciente. Por mais que estejamos abertos ou dispostos, a experiência da paixão ainda pode nos escapar. Por outro lado, podemos passar por ela quando definitivamente não a procuramos, quando é inconveniente e indesejável. Temos a mesma tendência a nos apaixonar por uma pessoa obviamente incompatível quanto por uma absolutamente apropriada. De fato, podemos até mesmo não apreciar ou admirar o objeto da nossa paixão e, por mais que tentemos, não sermos capazes de nos apaixonar por alguém que respeitamos muito e com quem seria desejável ter um relacionamento profundo. Isso não quer dizer que a experiência da paixão seja imune à disciplina. Os psiquiatras, por exemplo, freqüentemente se apaixonam por seus pacientes, assim como seus pacientes costumam se apaixonar por eles, mas devido ao seu papel e dever profissional geralmente são capazes de evitar o colapso de suas fronteiras egóicas e de desistir do paciente como objeto romântico. A luta e o sofrimento da disciplina envolvida podem ser enormes. Mas a disciplina e a vontade só podem controlar a experiência; não podem criá-la. Podemos escolher como vamos reagir à experiência da paixão, mas não a experiência em si.
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Apaixonar-se não é uma ampliação dos limites ou fronteiras do indivíduo; é seu colapso parcial e temporário. A ampliação dos nossos limites exige esforço; a paixão não. Pessoas preguiçosas e indisciplinadas tendem tanto a se apaixonar quanto as dedicadas e cheias de energia. Depois que o precioso momento da paixão passa e as fronteiras são restabelecidas, o indivíduo pode ficar desiludido, mas geralmente não cresce com a experiência. Já quando os limites são ampliados ou expandidos, eles tendem a permanecer assim. O verdadeiro amor é uma experiência de expansão permanente; a paixão não.
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O objetivo da paixão não é estimular o crescimento espiritual. Se temos um objetivo em mente quando nos apaixonamos, é o de pôr fim à nossa solidão, e talvez garantir isso com o casamento. Certamente não temos em mente a evolução espiritual. De fato, depois que nos apaixonamos, e antes de nos desapaixonarmos, achamos que chegamos ao ápice e que não há necessidade e possibilidade de ir além. Não sentimos que precisamos de desenvolvimento. Estamos totalmente satisfeitos com o lugar que alcançamos. O nosso espírito está em paz. Tampouco achamos que a pessoa amada precisa de crescimento espiritual. Ao contrário, nós a achamos perfeita, como se tivesse sido aprimorada. Se vemos nela qualquer falha, esta é descartada como insignificante ou como uma excentricidade que só aumenta o seu charme…
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck

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