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“… viver juntos (“e vamos esperar para ver como isso funciona e aonde vai nos levar”) ganha o atrativo de que carecem os laços de afinidade. Suas intenções são modestas, não se prestam a juramentos, e as declarações, quando feitas, são destituídas de solenidade, sem fios que prendam nem mãos atadas. Com muita frequência, não ha congregação diante da qual se deva apresentar um testemunho nem um todo-poderoso para, lá do alto, consagrar a união. Você pede menos, aceita menos, a assim a hipoteca a resgatar fica menor e o prazo de resgate, menos desistimulante. O futuro parentesco, quer desejado ou temido, não lança a sua longa sombra sobre o “viver juntos”. “Viver juntos” é por causa de, não afim de. Todas as opções mantêm-se abertas, não se permite que sejam limitados por atos passados.
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As pontes são inúteis, a menos que cubram totalmente a distância entre as margens – mas no “viver juntos” a outra margem esta envolta numa neblina que nunca se dissipa, que ninguem deseja dissolver nem tentar afastar. Não há como saber o que se vai ver quando (se) a névoa se dispersar – nem se de fato existe alguma coisa encoberta. A outra margem esta mesmo lá, ou será ela apenas uma fada morgana, uma ilusão criada pela neblina, uma fantasia da imaginação que nos faz ver formas bizarras nas nuvens que passam?
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Viver juntos pode significar dividir o barco, a ração e o leito da cabine. Pode significar navegar juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem. mas nada tem a ver com a passagem de uma margem à outra, e portanto seu propósito não é fazer o papel das sólidas pontes (Ausentes). Pode-se manter um diário ed aventuras passadas, mas nele há apenas uma ligeira referência ao intinerário e ao porto de destino. É possível que a neblina que cobre a outra margem – desconhecida, inexplorada – se suavize e desapareça, que venham a emergir os contornos de um porto, que se tome a decisão de atracar, mas nada disso é, nem deve ser, anotado nos registros de navegação.
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A afinidade é uma ponte que conduz ao abrigo seguro do parentesco. Viver junto não representa essa ponte nem o trabalho de construí-la. O convívio do “viver juntos” e a proximidade consanguínea são dois universos diferentes, com espaço-tempos distintos, cada qual um iniverso completo, com suas leis e lógicas próprias. Nenhuma passagem de um para o outro foi previamente explorada – embora se possa, fortuitamente, defrontar-se ou chocar-se com um deles. Não há como saber, pelo menos com antencedência, se viver jutos acabará se revelando uma via de tráfego intenso, ou um beco sem saída. A questão é atravessar os dias como se esta diferença não contasse, e portanto de uma forma que torne irrelevante o problema de “colocar os pingos nos Is”
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As redes de parentesco não podem estar seguras de suas chances de sobrevivência, muito menos calcular suas expectativas de vida. Sua fragilidade as torna ainda mais preciosas. Elas agora são tênues, sutis, delicadas; provocam sentimentos de proteção; fazem com que se desejem abraça-las acariciá-las e mimá-las; anseiam por serem tratadas com um carinho amoroso. e não são mais arrogantes e pretensiosas como costumavam ser quando nossos ancestrais explodiam e se rebelavam contra a rigidez e a viscosidade do anelo familiar. Não se sentem mais seguras de si mesmas – a contrário, estão dolorosamente conscientes de como um simples passo em falso pode ser fatal…
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Paradoxalmente – ou no fim nem tanto – os poderes de atração e enlace da parentela ganham impulso à medida que o magnetismo e o poder de controle da afinidade diminuem.
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De modo que aqui estamos, manobrando, vacilantes e desconfortáveis, entre dois mundos notoriamente distantes um do outro e com pendências entre si, mas ambos desejáveis e desejados – sem passagens claramente traçadas, para não falar de caminhos trilhados entre ambos.“
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Retirado do livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman
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Veja Também Amor Líquido 1
E veja o texto abaixo Contrato de Casamento e tire suas próprias conclusões.
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As pontes são inúteis, a menos que cubram totalmente a distância entre as margens – mas no “viver juntos” a outra margem esta envolta numa neblina que nunca se dissipa, que ninguem deseja dissolver nem tentar afastar. Não há como saber o que se vai ver quando (se) a névoa se dispersar – nem se de fato existe alguma coisa encoberta. A outra margem esta mesmo lá, ou será ela apenas uma fada morgana, uma ilusão criada pela neblina, uma fantasia da imaginação que nos faz ver formas bizarras nas nuvens que passam?
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Viver juntos pode significar dividir o barco, a ração e o leito da cabine. Pode significar navegar juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem. mas nada tem a ver com a passagem de uma margem à outra, e portanto seu propósito não é fazer o papel das sólidas pontes (Ausentes). Pode-se manter um diário ed aventuras passadas, mas nele há apenas uma ligeira referência ao intinerário e ao porto de destino. É possível que a neblina que cobre a outra margem – desconhecida, inexplorada – se suavize e desapareça, que venham a emergir os contornos de um porto, que se tome a decisão de atracar, mas nada disso é, nem deve ser, anotado nos registros de navegação.
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A afinidade é uma ponte que conduz ao abrigo seguro do parentesco. Viver junto não representa essa ponte nem o trabalho de construí-la. O convívio do “viver juntos” e a proximidade consanguínea são dois universos diferentes, com espaço-tempos distintos, cada qual um iniverso completo, com suas leis e lógicas próprias. Nenhuma passagem de um para o outro foi previamente explorada – embora se possa, fortuitamente, defrontar-se ou chocar-se com um deles. Não há como saber, pelo menos com antencedência, se viver jutos acabará se revelando uma via de tráfego intenso, ou um beco sem saída. A questão é atravessar os dias como se esta diferença não contasse, e portanto de uma forma que torne irrelevante o problema de “colocar os pingos nos Is”
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As redes de parentesco não podem estar seguras de suas chances de sobrevivência, muito menos calcular suas expectativas de vida. Sua fragilidade as torna ainda mais preciosas. Elas agora são tênues, sutis, delicadas; provocam sentimentos de proteção; fazem com que se desejem abraça-las acariciá-las e mimá-las; anseiam por serem tratadas com um carinho amoroso. e não são mais arrogantes e pretensiosas como costumavam ser quando nossos ancestrais explodiam e se rebelavam contra a rigidez e a viscosidade do anelo familiar. Não se sentem mais seguras de si mesmas – a contrário, estão dolorosamente conscientes de como um simples passo em falso pode ser fatal…
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Paradoxalmente – ou no fim nem tanto – os poderes de atração e enlace da parentela ganham impulso à medida que o magnetismo e o poder de controle da afinidade diminuem.
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De modo que aqui estamos, manobrando, vacilantes e desconfortáveis, entre dois mundos notoriamente distantes um do outro e com pendências entre si, mas ambos desejáveis e desejados – sem passagens claramente traçadas, para não falar de caminhos trilhados entre ambos.“
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Retirado do livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman
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Veja Também Amor Líquido 1
E veja o texto abaixo Contrato de Casamento e tire suas próprias conclusões.

Na semana passada comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de congratulações de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: “Coisa rara hoje em dia”. De fato, 40% de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a promessa de amar o outro para sempre.
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Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato.
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Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo “vou sempre amar você”, como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. “Eu amarei você para sempre” deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro.
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Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível. Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher “ideal” para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu “verdadeiro amor” estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar? O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas.
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As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: “Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia”. Homens e mulheres que conheceram alguém “melhor” e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento.
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O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros “melhores”. Eles aprendem a conviver com os pais que têm.
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Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.
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Stephen Kanitz
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Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato.
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Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo “vou sempre amar você”, como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. “Eu amarei você para sempre” deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro.
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Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível. Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher “ideal” para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu “verdadeiro amor” estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar? O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas.
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As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: “Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia”. Homens e mulheres que conheceram alguém “melhor” e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento.
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O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros “melhores”. Eles aprendem a conviver com os pais que têm.
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Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.
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Stephen Kanitz

