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Caio,

Vejo que você nunca associa o tema da oração a qualquer coisa que tenha a ver com casamento, encontro de homem e mulher, noivado, e coisas assim.

Você concorda comigo?

Gostaria de saber o por quê. É algum trauma seu? Ou é de tanto ver o que acontece? Sei que você crê e fala em oração. Por isso creio que você ora por muitas coisas. Mas estranho o seu silencio sobre o casamento. Por quê? Desculpe se me meti. Mas é uma curiosidade que tenho com você.

Obrigado,

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Meu amigo: Graça e Paz!

Sim, é verdade! Não peço a Deus para ninguém casar com ninguém. E não faço isto por algumas razões.

1a Não vejo na Escritura ninguém orando para casar com ninguém. As pessoas simplesmente casavam com quem queriam (no caso dos homens ricos ou independentes) ou com quem era “arranjado” pelos pais ou pela família. Não vejo nem mesmo o N.T. excitar as almas com essa intercessão. Ao contrário, a leitura de I Coríntios 7 parece não carregar nenhum incentivo quanto a se fixar em oração pelo tema, nem antes do casamento, e nem tampouco a fim de dar certeza de que o marido incrédulo será convertido. “Como sabes?”—é a pergunta de Paulo; e, como resposta, ele manda que o casal use o critério da “paz” para ver se vale ou não a pena permanecer juntos.

2a Nunca vi em Jesus a menor preocupação com o tema. Ele ressuscita mortos, mas não dá ordens a um marido que se foi…, quanto a voltar. À mulher chamada “adultera” pela “sinagoga”, Ele apenas a perdoa e manda que ela não viva mais daquele modo, mas não tenta fazer arranjos para que haja um encontro entre a mulher e um homem que ela goste.

3a Na minha experiência, depois de ver praticamente de tudo nessa área, prefiro fazer como meu filho Lukas, quando juntos íamos para as Bodas de Ouro de meus pais, avós dele. Ele disse no caminho de ida: “Eles provaram que podem se casar!” O interessante é que estávamos indo comemorar os 50 anos de casamento dos dois. Portanto, muito coerentemente com o que vi desde sempre, especialmente como pastor, é que só aposto num casamento quando ele se mostrou sólido, e, em geral, é quando os dois já venceram o mundo juntos.

4a Já vi traumas e surtos de desconfiança psicopatológicos se infiltrarem na alma de pessoas, especialmente mulheres, que receberam “garantias proféticas” de aquele era o “varão”; e que, logo depois, entraram em crise espiritual ao descobrir que o “varão de Deus” era um tremendo de um 171 cristão. Conheço gente internada em estado de desequilíbrio em razão disso. Outros perderam a fé. Outros se tornaram cínicos. E outros estão com “raiva de Deus” até hoje.

5a Na minha maneira de ver, tendo a Escritura a liberdade de listar feitos e feitos da fé — até mesmo ressurreição de mortos, o mar se abrir, e o sol parar em razão de uma oração —, intriga-me que ela jamais tenha contado a história do homem ou da mulher que quis alguém, orou, orou, orou, e, por conta disso, Deus tenha feito surgir amor naquela pessoa pela outra.

Não! Em minha Bíblia não encontro nada disso. E por que será? Na minha opinião é porque o amor é lugar misterioso, e Deus o criou para ser assim, e qualquer tentativa de “despertá-lo sem que este o queira”, conforme o Cantares, é uma temeridade.

Em minha opinião um casamento deve ser um encontro supremo de liberdade, espontaneidade, verdade, escolha, e prazer de dizer: “Esta é minha!” Ou, ainda: “Esta afinal é minha carne!”

A complexidade disto está no fato de que hoje há milhares de Adaõs e Evas.

Assim, o mistério é cada vez maior. No entanto, a liberdade de Deus ao homem deixa isto num plano misterioso no qual somente o coração tem a prerrogativa da decisão.

A única ordem explicita de Deus em relação fazer acontecer um casamento, em toda a Escritura, é o do Padeiro Oséias com a desvairada Gômer, a adultera que se entregava aos homens pela mais profunda incontinência e compulsão sexual. Não parece ser uma ordem que a maioria gostaria de receber dos céus.

Faço casamentos sempre. Mas há muitas décadas que não conduzo “votos de casamento” para ninguém durante a cerimônia. Deixo os noivos prometerem o que quiserem. Afinal, eu mesmo, acho que os “votos” ou “juramentos” (palavra anátema entre evangélicos) não condizem com as afirmações bíblicas do “tu não sabes”… “Deus pôs tudo no desconhecimento…”… “como sabes?”…etc.

Assim, oro pedindo a Deus que o casal possa saber manter o que tem, que sejam sábios, que evitem tudo aquilo que destrói o vínculo, etc. Mas jamais induzirei ninguém a pensar que aos 25 anos ou em qualquer idade, duas pessoas sabem com certeza que ficarão juntas para sempre. Ora, se não sabem é porque Deus disse que ninguém sabe nada de coisa alguma.

Quem achar diferente, deve recorrer à “boacumba evangélica”, posto que para mim, tais certezas, são coisa de encanto e feitiçaria. No casamento vejo razões bastante claras para deixar tudo na base da esperança.

Portanto, deixo que os pretendentes expressem uma confissão de propósitos, um desejo sincero, uma vontade boa, mas nada além disso; pois, eu sei que ninguém sabe o que acontecerá. Casamento é como Política: o homem tem que fazer em nome do homem, não de Deus. Todos os casamentos, até os mais felizes, vivem estações de divorcio psicológico ou emocional, de desinteresse, de mornidão, de tédio, de ócio, de habito, de rotina, e de cansaço. Faz parte.

Porém, se as pessoas não têm a perseverança para “passar pela tribulação”, a maioria termina o que ainda teria muita chance de vida. Por isto, ao invés de colocar o jugo do “agüente o que vier”, apenas digo: Problema são normais, e fazem parte do próprio casamento. Mas onde um homem e um mulher se amam com maturidade e sabedoria, tudo pode ter solução”.

Mas não evoco nenhum milagre que não seja amor; sim, o amor que eles já têm. Afinal, nunca vi, via intercessão em oração, alguém que não deseja, passar a desejar; alguém que não ama conjugalmente, passar a amar; e alguém que detesta o cônjuge desde o inicio, passar a quere-lo; e jamais vi surgir tesão onde antes nunca houve tesão. Todos os casais que eu vejo ficarem bem, passando por crises, são aqueles que se amam.

Quem se ama tem todas as chances, mas quem não se ama pode apenas conseguir resistência para agüentar aquilo que detesta. Casamento, porém, não é campo de batalha. Afinal, Paulo diz: “Deus vos tem chamado à paz!”

Aqueles que verdadeiramente se uniram, esses foram unidos por Deus. Os que nunca se uniram, todavia, nenhuma oração os fará ficarem juntos em amor conjugal. Podem até sublimar a crise e ficarem juntos apesar de tudo. Mas aí não há um casamento, conforme a alma demanda que um casamento seja.

O fato mais que simples é que assim como em qualquer outra coisa na vida, no casamento o justo também casará e viverá pela fé. Não há outro caminho senão amor pelo cônjuge, e fé de que juntos irão conseguir; obviamente que cada um fazendo sua parte, cedendo, buscando harmonia, e desejando o bem da paz. Espero que minha posição, ainda que exposta simplificadamente, lhe seja útil e esclarecedora.

Nele, em Quem o que é, é,

Caio

2005

retirado do site
http://www.caiofabio.com

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