Oi Caio,

Neste momento tento entender o que está acontecendo comigo, vou tentar resumir um pouco para se você puder me ajudar.

Procurei no seu site, mas não encontrei nada parecido com o que estou vivendo.

Estou fazendo terapia há um ano. O motivo principal deu ter parado num consultório de psicanálise foi porque eu estava fazendo um curso de direito e comecei a questionar se eu teria vocação para exercer a profissão…

Estava (e estou cansada de tudo), teve momentos que eu não queria nem sair da cama, parei com o curso e minha vida se resume em trabalhar e ir pra casa descansar… Ainda estou com dúvida sobre o curso.

Procurei ajuda e conheci o psicanalista em questão.

Nas primeiras sessões eu chegava desesperada, só chorava, e ele sempre muito profissional me atendia com amor. Houve uma época que eu não podia pagar pela consulta, e ele ofereceu a me cobrar, acho que fui criando um laço com ele. Ele é bem mais velho, acho que tem mais de 40, mas não aparenta a idade que tem, é muito bonito, fala muito bem (o que na profissão que ele exerce é de se esperar). Eu tenho 26.

Estou criando coragem pra te dizer isto porque antes da sua resposta não vou tomar nenhuma atitude…

Ele sempre me pergunta se eu estou namorando, eu digo que não, e não tenho ninguém mesmo; na verdade tem mais de 4 anos que não me relaciono afetivamente com nenhum homem, nem beijo rola; quando penso no cheiro de um homem me dá nojo; quando beijo, no inicio gosto, mas depois tenho nojo; não sou lésbica, sinto atração por homens, mas vezes acho que não preciso de um homem para me sentir feliz, completa; nunca tive um namoro sério, ou seja que durasse mais de 06 meses (isso eu não disse ao terapeuta ainda).

Certa vez ele me perguntou se eu era virgem e eu disse que sim, ele riu e perguntou se isso me incomodava; eu disse que não tenho problemas com minha virgindade, só que quando digo ninguém acredita.

Sabe moro no interior e por mais que os tempos tenham mudado, aqui virgindade ainda é tratada como um prêmio.

Fui molestada por um amigo do meu pai quando criança e por um primo também, (acho tecnicamente que sou virgem); e somente o médico sabe e me disse que meu trauma vem daí; sei lá… eu não entendo de psicanálise.

Às vezes não entendo o que ele fala. Ele sempre me elogia, diz que eu sou linda… Ele fez isso desde a primeira consulta, no fundo sei que é para melhorar minha auto-estima, pois, fui diagnosticada com depressão…

Ele me disse alguma coisa sobre sadismo e masoquismos, que eu estava me vingando dos meus pais por ter me sentido desprotegida, e com isso eu me punia também.

Sei que ele é ético, disso eu não tenho dúvida, mas estou cada vez mais me sentindo atraída por ele, já sonhei que estava fazendo sexo com ele, e sonhei também que tinha conhecido a esposa dele e que no sonho eu a admirei e senti um amor profundo por ela. Ele sempre fala da esposa dele, a elogia muito, a conheço por fotografia, mas não quero conhecê-la pessoalmente. Quando estou longe dele penso nele como HOMEM, mas quando vou às consultas o vejo como meu pai, sinto um carinho profundo por ele, sinto vontade de abraçá-lo.

Isso aconteceu uma vez quando eu contei que tinha sido molestada, chorei muito, por vergonha, nojo, medo, enfim… Ele veio e me abraçou e eu senti conforto nos braços dele. Sei que não o amo, mas não entendo o porquê desses sentimentos e tenho medo que isso passe a se tornar uma obsessão na minha vida.

Às vezes vou ao consultório só para vê-lo, eu acho que ele percebe, mas eu não demonstro. Teve uma consulta que ele disse umas palavras que me deixaram desconcertada: Ele disse desde a primeira vez que me viu que sentiu atração por mim… Eu fiquei pálida, não soube o que responder e, então, eu pensei: será que não era imaginação da minha? Será que aquilo era verdade? Então eu disse que não estava entendendo, ele riu me disse que tinha dito aquilo pra me mostrar o pavor que eu tenho quando um homem tenta se aproximar de mim.

Acho ele lindo, experiente, inteligente, tudo que me atrairia em um homem se ele fosse livre, mas ele não é; ele diz que é apaixonado pela esposa dele; só que eu só fico pensando nele…

E é por isso que busco sua ajuda, pelo que estou lendo no seu site, sei que você é uma pessoa ética e acima de tudo temente a Deus.

Por favor, me ajude!

Devo contar a ele o que sinto para que ele me oriente como lidar com esse sentimento ou não conto e deixo de fazer terapia. Não tenho coragem de dizer isso a ele. E só vou tomar uma atitude quando obtiver uma orientação sua. Sei que você é muito experiente e se tivesse acontecendo com você, você saberia lidar com isso; mas tenho medo de procurar outro terapeuta e ter que contar toda minha história novamente.

Por favor, me ajude!… – e ore por mim!

Resposta:

Minha querida amida no Senhor: Graça e Paz!

Primeiro comecemos pela razão de sua carta: seu sentimento de transferência de afetos para o psicanalista; e a aparente assimilação que ele fez do que para ele você transferiu como carência.

O fato é este:

Você é jovem e bela. Ele é homem. Fala da mulher com possível sinceridade, ou, também, quem sabe, para manter a “isenção” e ou a “proteção”.

Mas quando diz sempre que você é bela, e quando insiste em elevar sua auto-estima pela via do galanteio, ele quebra todos os princípios da psicanálise e envereda pela dúbia vereda da psico-cantada.

Parêntese: Nem Freud e nem Jung estiveram livres disso. Tiveram seus vários problemas nessa área.

Ora, quando ele disse que se sentia “atraído por você”, era isto mesmo o que ele estava dizendo.

Aliás, há muito que ele sabe que você fez a “transferência” e que você está nas mãos dele… — e isso o “excitou”.

Ao ver você corada de vergonha e desejo… — ele só viu o “corado do rosto”, e temeu! Por isso, saiu com essa de que era um “teste para você ver como se sente em relação aos homens”. Porém, ele sabe que se você tivesse dito: “Ah! Eu me sinto do mesmo jeito. O que a gente faz com isso?” — você estaria agora me contando não o que não aconteceu, mas sim como havia acontecido e como você estaria apaixonada por ele, etc. e tal.

Só não “rolou” porque você corou de vergonha e susto. Do contrário, o psicanalista estaria fazendo terapia sexual com você, na qual ele seria o médico, o remédio, a consulta e o fisioterapeuta sexual. E você… Ah! Você sempre será o experimento!

Desculpe, mas esta é a verdade; e se ele é bom só Deus sabe; no que me concerne, ele é apenas esperto e dissimulado.

Eu fico sempre muito irritado com médicos, psicanalistas, pastores, conselheiros, psicólogos, professores, padres, etc. — que usam a fragilidade das pessoas, a confiança, e a proteção do consultório e da profissão, a fim de darem essas cantadas covardes.

É covardia, manipulação e abuso!

Transferência de afetos do paciente para o terapeuta é algo comum de acontecer. É quase impossível, em certas circunstancias como a sua, que tal não aconteça.

Mas o psicanalista ou psicólogo sério, vê, discerne, encaminha na direção certa, sem alarde, e, fala no assunto apenas se o paciente avançar com proposições…

Ora, em tal caso, o profissional explica o fenômeno; e diz que a pessoa não está apaixonada por ele, mas sim pelo significado dele na vida da pessoa, dada a fragilidade e a carência [estou simplificando pra você entender]. E pronto. Pára aí. E se a pessoa insistir, o próprio profissional a transfere apara outro; pois, se a “transferência afetiva” permanece e se cronifica, nenhum tratamento dá certo.

No seu caso, infelizmente, o terapeuta se encheu de desejo pela virgem molestada e que tem nojo de homem, mas que se apaixonou por ele!

É uma lisonja para ele!

Assim, lamento informar, mas seu terapeuta deseja você, já disse isso a você, sabe de você por ele, e, na hora própria, ele espera ceifar…

Se você quiser transar com ele, então fique sendo paciente dele. Mas, também, prepare-se para enlouquecer e ficar mil vezes pior de tudo!

Portanto, mude de terapeuta. Sim! Mude e conte tudo de novo para outra pessoa. Por que você não procura uma mulher? Não é segurança total [já atendi mulheres carentes que se apaixonaram e tiveram casos com a psicóloga, e que por pouco não piraram de vez...], mas elimina bastante esse risco que é fruto da doença-carência de ambos — do paciente e do terapeuta.

Minha tristeza é que o mundo está tão doente que ninguém sabe mais nem mesmo aonde o jaleco de médico, professor… [ou seja lá o que for...], corresponde à atitude profissional que se espera do sujeito fantasiado de doutor.

Quanto ao seu nojo de homem, não se grile. O psicanalista serviu para uma coisa: mostrar definitivamente que seu nojo de homem é seletivo, e que, de fato, você apenas não encontrou alguém que a emocionasse… Até agora.

Sim! O fato de você ter sido molestada deixa marcas; mas, sinceramente, não creio que em você elas sejam tão profundas assim…

Os aspectos psicológicos de seu sentir são importantes, mas, creia: você é bem menos problemática do que imagina; e, tendo boa ajuda, ajuda isenta, simples e direta, você se ajeita interiormente rapidinho.

Não busque num homem o que seu coração só encontra em Deus!

O fato de o Psicanalista virar deus para o paciente também explica essa sua vontade de confiar…

Sua grande carência, todavia, é carência de Deus!

Leia o site e busque encher sua vida com fé e discernimento. Vá lendo… Sempre. E mais: relaxe!

Se você confiar e relaxar, creia: tudo irá para o seu próprio lugar!

É isto que por hora tenho a lhe dizer!

Receba meu carinho e orações!

Nele, que nunca usou ninguém, mas apenas serviu os que poderia usar,

Caio Fabio
Fonte aqui


Dependência

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Outra concepção muito comum sobre o amor é a idéia de que dependência é amor. Trata-se de uma concepção errônea com a qual os psicoterapeutas precisam lidar diariamente. Seu efeito é visto de forma mais dramática quando um indivíduo tenta ou ameaça suicidar-se, ou se toma incapacitantemente deprimido reagindo à rejeição ou separação de um cônjuge ou amante. Essa pessoa diz: “Não quero, não consigo viver sem meu marido [mulher, namorada, namorado]. Eu o [a] amo tanto!” E quando eu respondo, como freqüentemente faço, “Você está errado [a], não ama seu marido [mulher, namorada, namorado] “, a resposta irritada é: “Como assim? Acabei de dizer que não posso viver sem ele [ela].” Eu tento explicar: “O que você está descrevendo é parasitismo, não amor. Quando você precisa de outra pessoa para sobreviver, é um parasita dela. Não há escolha nem liberdade envolvida em seu relacionamento. É uma questão de necessidade, e não de amor. O amor é o livre exercício da escolha. Duas pessoas só se amam quando são capazes de viver sem o outro mas escolhem viver juntas.”
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Defino a dependência como a incapacidade de experimentar a totalidade ou funcionar adequadamente sem a certeza de que o outro está realmente cuidando de nós. Em adultos fisicamente sadios, a dependência é patológica – doentia, sempre uma manifestação de uma doença ou falha mental. Deve ser distinguida do que comumente chamamos de necessidades ou sentimentos de dependência. Todos nós – mesmo quando fingimos para os outros e nós mesmos que não – temos necessidades e sentimentos de dependência. Todos nós queremos ser mimados, nutridos, cui¬dados por pessoas mais fortes do que nós que realmente se preocupam conosco – e sem ter que fazer o menor esforço. Não importa o quanto somos fortes, dedicados, responsáveis e adultos, se olharmos atentamente para nós mesmos descobriremos o desejo de que cuidem de nós, para variar. Por mais velhos e maduros que sejamos, buscamos e gostaríamos de ter em nossas vidas figuras maternas e paternas satisfatórias. Mas, para a maioria de nós, esses desejos não são dominantes; não são o tema central de nos¬sa existência. Quando eles realmente dominam nossa vida e ditam a qualidade da nossa existência, temos algo mais do que apenas necessidades ou sentimentos de dependência: somos dependentes. Especificamente, uma pessoa cuja vida é dominada e ditada por necessidades de dependência, sofre de uma desordem psíquica diagnosticada como “desordem de personalidade dependente passiva”, talvez a desordem psiquiátrica mais comum.
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Esses indivíduos – os dependentes passivos – estão tão ocupados tentando ser amados que não lhes resta energia para amar. São como pessoas esfomeadas, procurando alimento onde podem, e sem ter alimento para oferecer aos outros. É como se fossem vazias por dentro, um poço sem fundo que nunca pode ser totalmente preenchido. Nunca estão “satisfeitas” ou têm uma sensação de plenitude. Sempre acham que “algo está faltando”. Não suportam a solidão. Devido à sua falta de totalidade, não possuem um verdadeiro senso de identidade e se definem apenas por seus relacionamentos.
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Um operador de prensa de perfuração, trinta anos de idade, extremamente deprimido, veio me ver três dias depois de sua mulher tê-lo abandonado, levando seus dois filhos. Ela já ameaçara ir embora três vezes, reclamando da sua total falta de atenção para com ela e as crianças. Em todas essas vezes ele lhe havia implorado para ficar e prometera mudar, mas sua mudança nunca durava mais do que um dia – e daquela vez ela cumprira a ameaça. Ele não dormia há duas noites e tremia de ansiedade. As lágrimas escorriam por seu rosto e pensava seriamente em suicídio.
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– Não posso viver sem minha família -, disse, chorando. – Eu amo muito todos eles.
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– Estou perplexo – respondi. – Você me disse que as queixas da sua mulher eram válidas, que nunca fez nada por ela, que só ia para casa quando queria, que não estava interessado nela sexual ou emocionalmente, que ficava meses a fio sem falar com as crianças, que nunca brincava com elas ou as levava a parte alguma. Você não tem relação alguma com as pessoas da sua família, por isso não entendo porque está tão deprimido com a perda de um relacionamento que nunca existiu.
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– Você não entende? – ele replicou. – Não sou nada agora. Nada. Não tenho mulher. Não tenho filhos. Não sei quem sou.
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Posso não me importar com eles, mas preciso amá-los. Não sou nada sem eles.
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Como ele estava muito deprimido – tendo perdido a identidade que sua família lhe dava – marquei uma nova consulta para dois dias depois. Não esperava grandes melhoras. Entretanto, quando ele voltou, entrou no consultório sorrindo alegremente e anunciando:
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– Está tudo bem agora.
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– Você voltou a viver com a sua família? – perguntei.
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– Ah, não – respondeu sorrindo. – Não tenho notícias deles desde que estive aqui. Mas ontem à noite conheci uma garota no bar que freqüento. Ela disse que realmente gosta de mim. É separada, como eu. Marcamos um novo encontro esta noite. Eu me sinto humano de novo. Acho que não preciso mais me consultar com você.
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Essas mudanças rápidas são típicas dos dependentes passivos. Não importa de quem eles dependem, desde que haja alguém de quem depender. Não importa qual é sua identidade, desde que haja alguém para fornecê-la. Conseqüentemente, seus relacionamentos, embora pareçam dramáticos em sua intensidade, são na verdade extremamente superficiais. Devido à sua forte sensação de vazio interior e ânsia de preenchê-lo, os dependentes passivos não adiam a satisfação da sua necessidade de outras pessoas.
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Uma jovem bonita, inteligente e saudável tivera, dos dezesseis aos 21 anos, uma série quase interminável de relacionamentos sexuais com homens invariavelmente inferiores a ela em termos de inteligência e capacidade. Ela passava de um perdedor para outro. Descobrimos que o problema era que não conseguia esperar o bastante para procurar um homem adequado, ou até mesmo escolher entre os muitos homens quase que imediatamente disponíveis. Vinte e quatro horas depois de terminar um relacionamento, paquerava o primeiro homem que conhecia em um bar e comparecia à próxima sessão de terapia tecendo-lhe elogios. “Sei que ele está desempregado e bebe demais, mas é muito talentoso e realmente gosta de mim. Sei que este relacionamento vai dar certo.”
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Mas nunca dava certo. Não só porque ela não sabia escolher, como também porque seguia um padrão de grudar-se no homem, exigindo provas da sua afeição e sua presença constante, recusando-se a ficar só. “Não suporto estar longe de você porque te amo muito”, dizia-lhe, mas cedo ou tarde ele se sentia totalmente su¬focado e aprisionado pelo seu “amor”. O resultado era uma vio¬lenta explosão, o fim do relacionamento e o recomeço do ciclo no dia seguinte. Esta mulher só conseguiu quebrar esse ciclo depois de três anos de terapia, nos quais passou a apreciar sua própria inteligência e qualidades, a identificar e a distinguir seu vazio e sua ânsia do genuíno amor, a perceber como a sua fome a estava levando a iniciar e manter relacionamentos prejudiciais e a aceitar a necessidade da mais rígida disciplina sobre sua ansiedade para tirar partido dos seus dons.
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No diagnóstico, a palavra “passivo” é usada conjuntamente com a palavra “dependente” porque essas pessoas se preocupam com o que os outros podem fazer por elas, e não com o que elas próprias podem fazer aos outros. Certa vez, trabalhando com um grupo de cinco pacientes solteiros – todos dependentes passivos -, pedi que falassem sobre seus objetivos. Como gostariam de estar dali a cinco anos? De um modo ou de outro, todos responderam: “Quero me casar com alguém que realmente se importe comigo.” Ninguém falou em ter um emprego interessante, criar uma obra de arte, contribuir para a comunidade, ser capaz de amar alguém ou até mesmo ter filhos. A idéia de esforço não estava envolvida em seus devaneios; só visualizavam um estado passivo de recepção de afeto. Na ocasião, disse a esses pacientes, como digo a tan¬tos outros: “Se o objetivo de vocês é ser amados, não vão conseguir.
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O único modo garantido de ser amado é ser digno de amor, e vocês não podem ser dignos de amor quando seu principal objetivo na vida é ser amados passivamente.” Isso não significa que as pessoas dependentes passivas nunca façam coisas pelos outros, mas sua principal motivação para fazê-las é consolidar o apego dos outros a elas, garantindo assim sua própria proteção. E quando a possibilidade de afeto do outro não está diretamente envolvida, elas têm grande dificuldade em “fazer coisas”. Todos os membros desse grupo acharam extremamente difícil comprar uma casa, separar-se dos pais, arranjar um emprego, deixar um trabalho antigo ou até mesmo dedicar-se a um hobby.
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No casamento normalmente há uma diferenciação dos papéis dos dois cônjuges, uma divisão de trabalho que costuma ser eficiente. Em geral a mulher cozinha, limpa a casa, faz as compras e cuida dos filhos; o homem tem um emprego, cuida das finanças, apara a grama e faz reparos. Os casais sadios trocam instintivamente de papéis de vez em quando. O homem pode cozinhar uma vez ou outra, passar um dia da semana com os filhos, limpar a casa para surpreender a mulher; ela, por sua vez pode arranjar um trabalho de meio expediente, aparar a grama no aniversário do marido ou cuidar dos cheques e das contas durante um ano. Muitas vezes o casal considera essa troca de papéis um tipo de jogo que traz sabor e variedade para o casamento. É verdade, mas talvez o mais importante (até mesmo quando realizado de maneira inconsciente) seja o fato de esse processo diminuir a dependência mútua. De certo modo, cada cônjuge faz uma espécie de treinamento de sobrevivência para o caso de perder o outro. Para os dependentes passivos, no entanto, a perspectiva de perder o outro é tão assustadora que não conseguem encarar a preparação para isso, ou tolerar um processo que reduziria a dependência ou aumentaria a liberdade do outro. Conseqüentemente, uma de suas características marcantes é que sua diferenciação de papéis é rígida. Em vez de diminuir eles tentam aumentar a dependência mútua, tornando o casamento mais parecido com uma prisão. Ao fazer isso – em nome do que chamam de amor, mas que na realidade é dependência – limitam sua própria liberdade e estatura, assim como as do outro.
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Ocasionalmente, como parte desse processo, os dependentes passivos desistem de habilidades que possuíam antes do casamento. Um exemplo muito comum é a síndrome da mulher que “não consegue” dirigir. Na metade dos casos, ela pode nunca ter dirigido; mas na outra metade, algumas vezes após um pequeno acidente, ela desenvolve uma “fobia” de dirigir – em algum ponto após o casamento – e pára de guiar. O efeito dessa “fobia” em áreas rurais e suburbanas, onde moram muitas pessoas, é tornar a mulher quase que totalmente dependente do marido e prendê-lo a ela pela sua incapacidade. Agora ele deve fazer todas as compras para a família – ou então levá-la para o supermercado. Como em geral esse comportamento satisfaz as necessidades de dependência de ambos, quase nunca os casais o consideram doentio ou ao menos um problema a ser resolvido. Quando sugeri a um banqueiro – extremamente inteligente em outras questões – que sua mulher, que subitamente parara de dirigir aos 46 anos devido a uma “fobia”, poderia ter um problema digno de atenção psiquiátrica, ele retrucou: “Ah, não, o médico lhe disse que era por causa da menopausa, e que nada poderia ser feito quanto a isso.” A mulher se sentia segura sabendo que o marido nunca a deixaria ou teria uma amante, porque estava ocupado demais depois do trabalho, levando-a às compras e transportando os filhos. O marido se sentia seguro sabendo que a mulher nunca o deixaria ou teria um amante, porque não tinha mobilidade para encontrar pessoas quando ele estava longe. Através desse comportamento, os casamentos de dependência passiva podem se tornar duradouros e seguros, mas não ser considerados sadios ou genuinamente amorosos, porque a segurança é obtida à custa da liberdade e o relacionamento serve para retardar ou destruir o crescimento de cada parceiro. Costumo dizer aos casais que “um bom casamento só pode existir entre duas pessoas fortes e independentes”.
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A dependência passiva se origina de uma falta de amor. A sensação de vazio que atinge esses dependentes é um resultado direto da incapacidade de seus pais de satisfazer suas necessidades de afeto, atenção e carinho durante a infância. Na primeira parte desse livro mencionei que as crianças amadas e protegidas com relativa constância durante toda a infância entram na idade adulta com um sentimento profundo de que são valiosas e dignas de amor e, portanto, serão amadas e protegidas enquanto permanecerem fiéis a si mesmas. Já as crianças que crescem em uma atmosfera em que o amor e o carinho são raros ou estão ausentes, tomam-se adultos sem essa força interior. Em vez disso, têm uma sensação de insegurança, de “não ter o bastante”, de que o mundo é imprevisível e frio e de que seu valor e seu direito de serem amadas são duvidosos. Portanto, não é de admirar que essas pessoas sintam necessidade de agarrar o amor, o cuidado e a atenção onde quer que os encontrem, com um desespero que as leva a ter um comportamento manipulador, maquiavélico e sem amor, que destrói os mesmos relacionamentos que tentam preservar.
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Como também já dissemos na parte anterior, o amor e a discipli¬na caminham de mãos dadas, de modo que pais sem afeto e carinho são pessoas sem disciplina, e quando não conseguem oferecer aos filhos a sensação de que são amados, tampouco lhes oferecem a capa¬cidade de autodisciplina. Assim, a dependência passiva é apenas a principal manifestação de uma desordem de personalidade. Os dependentes passivos não têm autodisciplina. Não estão dispostos ou não são capazes de adiar a gratificação de sua fome de atenção. Em seu desejo desesperado de criar e manter vínculos, deixam de lado a honestidade. Apegam-se a relacionamentos deteriorados quando deveriam renunciar a eles. Mais importante ainda, não se sentem responsáveis por si mesmos. Fazem passivamente dos outros, muitas vezes até dos próprios filhos, a fonte de sua felicidade e realização; portanto, quando não estão felizes ou realizados, basicamente acreditam que os outros são os responsáveis. Por isso estão sempre zangados, sempre se decepcionando com os outros, que na verdade nunca satisfazem suas necessidades nem são capazes de fazê-los felizes. Tenho um colega que costuma dizer: “A pior coisa que você pode fazer é se permitir ser dependente de outra pessoa. É melhor ser dependente de heroína. Enquanto houver uma dose, ela nunca o decepcionará. Enquanto estiver presente, fará você feliz. Mas se você esperar que outra pessoa lhe traga felicidade, acabará sempre desapontado.” Na verdade, não é por acaso que a perturbação mais comum que os dependentes passivos manifestam – além dos relacionamentos – é a dependência de drogas e álcool. Eles têm uma “personalidade viciável”. Viciam-se em pessoas, sugando-as e consumindo-as, e quando elas não estão disponíveis para lhes servir, freqüentemente usam a garrafa, a agulha ou a pílula como substitutos.
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Em resumo, a dependência pode parecer amor porque faz as pessoas se agarrarem fortemente umas às outras. Mas na verdade não é amor, e sim uma forma de antiamor, que nasce de uma inca¬pacidade dos pais de amar. Uma incapacidade que se perpetua e quer receber em vez de dar; alimenta o infantilismo e não o crescimento. Esforça-se para aprisionar e conter em vez de liberar. Acaba destruindo indivíduos e relacionamentos em vez de fortalecê-los.
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck

0 mito do amor romântico

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PARA NOS APRISIONAR COM TANTA EFICIÊNCIA NO CASAMENTO, uma das características da paixão deve ser provavelmente a ilusão de que irá durar para sempre. Em nossa cultura, esta ilusão é alimentada pelo mito do amor romântico, cujas origens remontam à infância, aos nossos contos de fadas favoritos em que a princesa e o príncipe, uma vez unidos, vivem felizes para sempre. O mito do amor romântico na verdade nos diz que, para cada homem no mundo, há uma mulher que “nasceu para ele” – e vice-versa. Também sugere que só há um homem para uma mulher e uma mulher para um homem, e que esse encontro “está escrito nas estrelas”. Quando encontramos a pessoa que nos é destinada, nós a reconhecemos através da paixão. Descoberta aquela que os céus escolheram para nós, a combinação será perfeita: conseguiremos satisfazer todas as suas necessidades e seremos felizes para sempre em perfeita união e harmonia. Mas se essas necessidades não forem satisfeitas, se surgirem atritos e nos desapaixonarmos, ficará claro que cometemos um erro terrível, interpretamos erradamente as estrelas, não formamos o único par perfeito, o que pensávamos que fosse amor não era real ou “verdadeiro”, e nada pode ser feito em relação a isso além de vivermos infelizes para sempre ou nos divorciarmos.
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Embora em geral eu ache que os grandes mitos são grandes exatamente porque representam e incorporam verdades universais (mais tarde examinarei vários desses mitos), o mito do amor romântico não passa de uma terrível mentira. Talvez seja uma mentira necessária, já que garante a sobrevivência da espécie ao encorajar e aparentemente legitimar a experiência da paixão que nos aprisiona ao casamento. Mas, como psiquiatra, lamento profundamente com freqüência pela horrível confusão e sofrimento que ela causa. Milhões de pessoas desperdiçam um bocado de energia tentando desesperada e inutilmente ajustar a realidade de suas vidas à irrealidade do mito. A Sra. A. se submete absurdamente ao marido devido a um sentimento de culpa. “Eu realmente não o amava quando nos casamos”, diz. “Fingia que amava. Acho que o enganei, por isso não tenho o direito de reclamar dele, e devo fazer tudo que ele quer.” O Sr. B. lamenta: “Eu me arrependi de não ter casado com a Srta. C. Acho que teria sido um bom casamento. Mas não estava loucamente apaixonado por ela, então achei que poderia não ser a pessoa certa para mim.” A Sra. D., casada há dois anos, sente-se muito deprimida sem causa aparente, e passa a terapia dizendo: “Não sei o que há de errado comigo. Tenho tudo que preciso, inclusive um casamento perfeito.” Somente meses depois ela conseguiu aceitar o fato de que se desapaixonara pelo marido, mas isso não significava que cometera um erro terrível. O Sr. E., também casado há dois anos, começa a sofrer de fortes dores de cabeça à noite e não consegue acreditar que sejam psicossomáticas. “Minha vida familiar está ótima. Amo a minha mulher tanto quanto no dia em que nos casamos”, afirma. Mas só se livra de suas dores de cabeça um ano depois, quando consegue admitir que “Ela me deixa louco, sempre querendo, querendo, querendo coisas sem se preocupar com o meu salário” e então consegue confrontá-la com sua extravagância. O Sr. E. a Sra. E admitem um para o outro que se desapaixonaram e então infernizam suas vidas sendo infiéis na busca do “verdadeiro amor”, sem perceber que o próprio fato de terem admitido que não estão mais apaixonados poderia marcar o início de um esforço em prol do casamento, em vez de seu fim.
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Mesmo quando os casais admitem que a lua-de-mel acabou, que não estão mais romanticamente apaixonados e ainda são capazes de se comprometer com o relacionamento, continuam apegados ao mito e tentando ajustar suas vidas a ele. Pensam: “Embora a paixão tenha acabado, se tivermos força de vontade para agir como se ainda estivéssemos apaixonados, talvez o amor romântico volte para as nossas vidas.” Esses casais valorizam a união. Quando entram em grupos de terapia de casais (que é para onde minha mulher, eu e nossos colegas mais próximos encaminhamos a maioria dos casos sérios) eles se sentam juntos, falam um em nome do outro, justificam os defeitos do outro e tentam se apresentar diante do grupo como uma frente unida, acreditando que essa união será um sinal de relativa saúde matrimonial e um pré-requisito para a sua melhora. Mais cedo ou mais tarde, geralmente mais cedo, temos de dizer-lhes que estão casados demais, unidos demais e precisam estabelecer alguma distância psicológica para começar a trabalhar construtivamente seus problemas. Às vezes é de fato necessário separá-los fisicamente, fazendo-os sentarem-se longe um do outro no círculo do grupo. Repetidamente temos de dizer “Deixe Mary falar por si mesma, John” e “John pode se defender sozinho, Mary, é forte o suficiente para isso”. No final, se continuam na terapia, todos os casais aprendem que uma real aceitação da individualidade e distinção de cada um é a unica base sobre a qual um casamento maduro pode ser construído e o amor verdadeiro pode crescer.
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck

Como já disse, pacientes que recorrem à psicoterapia invariavelmente se encontram de certa forma confusos quanto à natureza do amor. Isso porque, devido ao seu mistério, há muitas concepções errôneas sobre o amor. Embora este livro não vá roubar-lhe o mistério, espero que seja capaz de esclarecer algumas questões que ajudem a eliminar essas concepções equivocadas que causam sofrimento não só aos pacientes, mas também a todas as pessoas que tentam compreender suas próprias experiências. Parte desse sofrimento me parece desnecessária, já que essas fantasias do amor poderiam se tornar menos populares através do ensino de uma definição mais precisa do amor. Por isso, decidi começar a explorar a natureza do amor examinando tudo o que ele não é.

A amor não é…

“Apaixonar-se”

DE TODAS AS CONCEPÇÕES ERRÔNEAS, a mais poderosa e insidiosa é aquela que afirma que a paixão é sinônimo de amor – ou, pelo menos, uma de suas manifestações. É poderosa, porque a paixão é experimentada subjetiva e intensamente como amor. Quando uma pessoa se apaixona, o que ele ou ela certamente sente é “eu o amo” ou “eu a amo”. Só que dois problemas se tomam imediatamente visíveis. O primeiro é que a experiência da paixão é especificamente erótica. Não nos apaixonamos por nossos filhos, embora possamos amá-los profundamente. Não nos apaixonamos por amigos do mesmo sexo – a não ser que sejamos homossexuais -, embora possamos gostar muito deles. Só nos apaixonamos quando temos consciente ou inconscientemente uma motivação sexual. O segundo problema é que a experiência da paixão é invariavelmente temporária. Não importa por quem nos apaixonamos, se o relacionamento durar, cedo ou tarde nos desapaixonaremos. Isso não significa que sempre deixamos de amar a pessoa por quem nos apaixonamos, mas que o êxtase que caracteriza a paixão acaba. A lua-de-mel sempre termina. O romance perde o brilho.
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Para compreender a natureza do fenômeno da paixão e a inevitabilidade do seu fim, é necessário examinar o que os psiquiatras chamam de fronteiras do ego. Pelo que podemos constatar—através de evidências indiretas, nos primeiros meses de vida o recém-nascido não distingue entre si mesmo e o resto do universo. Quando move braços e pernas, o mundo se move. Quando tem fome, o mundo também tem. Quando vê sua mãe se movendo, é como se ele estivesse se movendo. Quando sua mãe canta, o bebê não sabe que não é ele quem está produzindo o som. Ele não consegue se distinguir do berço, do quarto e dos pais. O animado e o inanimado são a mesma coisa. Ainda não existe distinção entre “eu” e “você”. Ele e o mundo são um só. Não há fronteiras, separações. Não há identidade.
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Com o tempo a criança começa a se experimentar como uma entidade separada do resto do mundo. Quando tem fome, a mãe nem sempre aparece para alimentá-la. Quando quer brincar, nem sempre a mãe está disposta. Então a criança percebe que seus desejos não são ordens para a mãe, que sua vontade é algo distinto do comportamento dela. Começa a surgir uma noção do “eu”. Acredita-se que essa interação entre mães e filhos é a base sobre a qual a noção de identidade da criança começa a ser construída. Foi observado que quando a interação entre eles é gravemente perturbada – por exemplo, quando não há mãe nem uma substituta satisfatória, ou quando a mãe, devido à sua própria doença mental, é totalmente negligente ou desinteressada – o bebê se toma uma criança ou um adulto cujo senso de identidade apresenta as falhas mais básicas.
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À medida que o bebê percebe que sua vontade é apenas dele e não do universo, começa a fazer outras distinções entre si mesmo e o mundo. Quando tem vontade de se mover, seu braço balança diante dos seus olhos, mas nem o berço nem o teto se movem. Assim, aprende que seu braço e sua vontade estão ligados, e que portanto seu braço pertence a ele, não é algo externo ou de outra pessoa. Dessa maneira, durante o primeiro ano de vida, aprendemos os fundamentos de quem ou o que somos ou não. No final do nosso primeiro ano, sabemos que o braço, o pé, a cabeça, a língua, os olhos e até mesmo o ponto de vista, a voz, os pensamentos, a dor de barriga e os sentimentos nos pertencem. Conhecemos nosso tamanho e nossos limites físicos. Esse conhecimento é o que chamamos de fronteiras do ego.
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O desenvolvimento dessas fronteiras é um processo que continua através da infância, durante a adolescência e até mesmo, na idade adulta, mas os limites estabelecidos posteriormente são mais psíquicos do que físicos. Por exemplo, a idade entre dois e três anos é tipicamente um período em que a criança aceita os limites do seu poder. Embora já tenha aprendido que seu desejo não é necessariamente uma ordem para a mãe, ainda se apega à possibilidade de que poderia ser e ao sentimento de que deveria ser. É devido a essa esperança e a esse sentimento que a criança de dois anos geralmente tenta agir como um tirano e autocrata, dando ordens aos pais, aos irmãos e aos animais de estimação como se fossem soldados rasos de seu exército particular, e reagindo com uma fúria real quando não é atendida. Por isso, os pais referem-se a essa idade como “os terríveis dois anos”. Aos três anos a criança geralmente se tomou mais tratável e tranqüila como um resultado da aceitação da realidade de sua relativa impotência. Ainda assim, a possibilidade da onipotência ainda é um sonho tão agradável que não pode ser completamente abandonado, mesmo depois de anos de doloroso confronto com a própria impotência. Embora a criança de três anos tenha passado a aceitar a realidade dos limites do seu poder, durante alguns anos continuará ocasionalmente fugindo para um mundo da fantasia em que a possibilidade da onipotência (particularmente a sua) ainda existe. É o mundo do Super-Homem e do Capitão Marvel. No entanto, gradualmente, até mesmo os super-heróis são abandonados. No meio da adolescência os jovens já sabem que são indivíduos, presos aos limites do próprio corpo e poder, cada um deles um organismo relativamente frágil e impotente, existindo apenas através da cooperação de um grupo de semelhantes organizados em sociedade. Dentro desse grupo eles não se distinguem particularmente, mas são separados uns dos outros por suas identidades, fronteiras e limites individuais.
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É solitário estar dentro dessas fronteiras. Algumas pessoas – particularmente aquelas que os psiquiatras chamam de esquizóides -, devido a experiências desagradáveis e traumáticas na infância, consideram o mundo exterior irremediavelmente perigoso, hostil, confuso e insatisfatório. Acham que suas fronteiras as protegem e confortam, e encontram segurança na solidão. Mas a maioria de nós acha a solidão dolorosa e deseja fugir da muralha da identidade individual para poder se sentir mais unido com o mundo externo. A experiência de se apaixonar nos permite essa fuga – temporariamente. A essência do fenômeno da paixão é um súbito colapso de parte das fronteiras do ego de um indivíduo, que lhe permite unir sua identidade à de outra pessoa. A repentina libertação do indivíduo de si mesmo, a explosiva fusão com a pessoa amada e o grande alívio da solidão que acompanham esse colapso são experimentados pela maioria de nós como um êxtase. Nós e a pessoa amada somos um só! A solidão acabou!
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Em alguns aspectos (mas certamente não em todos), o ato de se apaixonar é um ato de regressão. A experiência de se fundir com a pessoa amada faz eco ao tempo em que estávamos unidos com nossas mães. Junto com a fusão, voltamos a experimentar a sensação de onipotência abandonada na infância. Tudo parece possível! Unidos à pessoa amada achamos que podemos superar todos os obstáculos. Acreditamos que a força do nosso amor subjugará e fará sumir nas trevas as forças da oposição. Todos os problemas serão resolvidos. O futuro será só alegria. A irrealidade desses sentimentos é basicamente a mesma da criança de dois anos que acha que é o rei da família e do mundo, com poderes ilimitados.
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Assim como a realidade invade a fantasia de onipotência da criança de dois anos, invade a unidade fantástica do casal apaixonado. Mais cedo ou mais tarde, como uma reação aos problemas do dia-a-dia, o indivíduo se reafirmará. Ele quer fazer sexo; ela não. Ela quer ir ao cinema; ele não. Ele quer depositar dinheiro no banco; ela quer uma lava-louças. Ela quer falar sobre seu trabalho; ele quer falar sobre o dele. Ela não gosta dos amigos dele; ele não gosta dos amigos dela. Então os dois, no fundo de seus corações, chegam à terrível conclusão de que eles e a pessoa amada não são um só, que ela – ou ele – ainda continuará a ter seus próprios desejos, gostos, preconceitos e momentos diferentes dos seus. Uma a uma, gradual ou subitamente, as fronteiras do ego são restabelecidas – e eles se desapaixonam. Mais uma vez são dois indivíduos separados. E nesse ponto que eles começam a romper os laços do relacionamento ou dão início ao trabalho que constrói o verdadeiro amor.
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Ao usar a palavra “verdadeiro”, quero dizer que, quando estamos apaixonados, a percepção de que estamos amando é falsa. Nossa sensação subjetiva de amar é uma ilusão. A elaboração plena do verdadeiro amor será deixada para o final desta parte. Contudo, ao afirmar que quando um casal se desapaixona pode realmente começar a amar, também quero dizer que o verdadeiro amor não se origina de uma sensação de amor. Pelo contrário, freqüentemente ocorre em um contexto em que esta sensação está ausente, quando agimos amorosamente apesar de não nos sentirmos amorosos. Se aceitamos a nossa definição inicial do amor, a experiência de “apaixonar-se” não é – pelas várias razões que veremos a seguir – o verdadeiro amor.
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Apaixonar-se não é um ato da vontade. Não é uma escolha consciente. Por mais que estejamos abertos ou dispostos, a experiência da paixão ainda pode nos escapar. Por outro lado, podemos passar por ela quando definitivamente não a procuramos, quando é inconveniente e indesejável. Temos a mesma tendência a nos apaixonar por uma pessoa obviamente incompatível quanto por uma absolutamente apropriada. De fato, podemos até mesmo não apreciar ou admirar o objeto da nossa paixão e, por mais que tentemos, não sermos capazes de nos apaixonar por alguém que respeitamos muito e com quem seria desejável ter um relacionamento profundo. Isso não quer dizer que a experiência da paixão seja imune à disciplina. Os psiquiatras, por exemplo, freqüentemente se apaixonam por seus pacientes, assim como seus pacientes costumam se apaixonar por eles, mas devido ao seu papel e dever profissional geralmente são capazes de evitar o colapso de suas fronteiras egóicas e de desistir do paciente como objeto romântico. A luta e o sofrimento da disciplina envolvida podem ser enormes. Mas a disciplina e a vontade só podem controlar a experiência; não podem criá-la. Podemos escolher como vamos reagir à experiência da paixão, mas não a experiência em si.
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Apaixonar-se não é uma ampliação dos limites ou fronteiras do indivíduo; é seu colapso parcial e temporário. A ampliação dos nossos limites exige esforço; a paixão não. Pessoas preguiçosas e indisciplinadas tendem tanto a se apaixonar quanto as dedicadas e cheias de energia. Depois que o precioso momento da paixão passa e as fronteiras são restabelecidas, o indivíduo pode ficar desiludido, mas geralmente não cresce com a experiência. Já quando os limites são ampliados ou expandidos, eles tendem a permanecer assim. O verdadeiro amor é uma experiência de expansão permanente; a paixão não.
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O objetivo da paixão não é estimular o crescimento espiritual. Se temos um objetivo em mente quando nos apaixonamos, é o de pôr fim à nossa solidão, e talvez garantir isso com o casamento. Certamente não temos em mente a evolução espiritual. De fato, depois que nos apaixonamos, e antes de nos desapaixonarmos, achamos que chegamos ao ápice e que não há necessidade e possibilidade de ir além. Não sentimos que precisamos de desenvolvimento. Estamos totalmente satisfeitos com o lugar que alcançamos. O nosso espírito está em paz. Tampouco achamos que a pessoa amada precisa de crescimento espiritual. Ao contrário, nós a achamos perfeita, como se tivesse sido aprimorada. Se vemos nela qualquer falha, esta é descartada como insignificante ou como uma excentricidade que só aumenta o seu charme…
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck

Hoje venho aqui te contar o meu pior pesadelo…

Dia 15/09 seria nosso casamento, ontem dia 26/08 ele desmarcou tudo.

Não disse uma razão palpável, não me deu um motivo…

A cerimônia iria ser como sempre sonhei — com o amor da minha vida, e abençoada por Aquele que sempre nos confortou.

Peço sua ajuda para não transformar tanto amor no mais puro ódio.

Um abraço,

Resposta:

Amada amiga: Graça e Paz!

Só posso agradecer a Deus por ter dado ao moço a coragem de não magoar você o resto da vida, tendo tido a bravura de fazer um “vexame” agora do que fazer uma “tragédia” amanhã — que é o que certamente aconteceria.

“You have got to be cruel in order to be good!” — diz o ditado inglês.

É obvio que ele não queria ser cruel com você para poder ser bom para você.

O que aconteceu é que ele acabou por fazer uma crueldade antes que um dia fizesse uma perversidade; a qual seria, depois de vários filhos, dizer que casou por qualquer razão que não tivesse sido amor da cabeça aos pés.

É claro também que ele não chegou aonde chegou — tanto para quase casar como também para terminar antes de casar — sem certeza e dúvida.

Foi certamente pela admiração, pelo carinho, pela fé, pela amizade e pelo desejo que ele quis casar. Mas certamente foi por ter verificado que carinho não banca casamento; que admiração é fundamental, mas não é o essencial; que amizade é essencial, embora ainda não seja a essência; e que sem desejo todo casamento é uma sala de estar [quando é bom] ou uma UTI [quando é ruim]; mas que, por outro lado, casamento tem que ter bem mais do que apenas desejo — Sim! provavelmente [quase certamente] ele terminou agora por todas essas razões [ou por qualquer que seja a razão], aquilo que já nasceria acabado se ele não tivesse parado antes…

Agora, sua descrição me angustiou. Veja:

“A cerimônia iria ser como sempre sonhei — com o amor da minha vida, e abençoada por Aquele que sempre nos confortou.”

Ora, ao fim você diz:

“Peço sua ajuda para não transformar tanto amor no mais puro ódio.”

O que você me transmitiu para além das palavras foi o seguinte:

1. Ele era mais seu sonho do que seu amor. Por isso o ódio pode ser “puro” e o amor foi apenas “tanto”.

2. Seu sonho o incluiu porque ele era perfeitamente incluível.

3. Seu grande amor é o seu sonho.

4. A “cerimônia” [com a ênfase que você deu a ela] mostra o nível de fantasia de sua alma.

5. Para você a fonte do ódio é dupla: o sonho acabado [por hora] e o que as pessoas dizem: o vexame.

6. Esse ódio puro ou puro ódio é sentimento de menina apaixonada pelo Castelo, pela corte e pelo Príncipe — nesta ordem.

7. Seu grande casamento seria com o “seu casamento”, do qual ele [o quase marido] faria parte.

Assim, dou Graças a Deus mais uma vez!

Ora, embora o ideal seja que ninguém chegue tão perto de algo já tão falado e arranjado, a fim de dizer “Eu estava enganado”; ou: “Não vai dar!” — mas ainda é melhor do que jamais.

Entretanto, como diziam os antigos, “antes tarde do que nunca”; pois, se ele não tivesse feito o que fez…, o relacionamento de vocês que já vinha sendo “salvo pela pregação”, não sobreviveria muito tempo [pois, casamento não deve ter que ser salvo por mensagens de outros] —; e, sendo assim, casando, em pouco tempo, você estaria me escrevendo se queixando dele; depois dizendo que ele estava grosso; depois que ele estava estranho; depois que ele já não procurava você na cama; depois escreveria dizendo que achava que ele estava tendo um caso; e, por fim, que ele estava tendo um caso; então, que ele era um cretino, um canalha, que enganou você tantos anos, e que deveria ter terminado antes de casar, se era para cometer uma calamidade assim.

Então, me diga:

O que você prefere: a verdade mais verdadeira ou a mentira mais cerimoniosa e bela?

O que você prefere: um marido estátua e troféu, que trata você com carinho, respeito e admiração devidos a todo outro ser humano que nos trate bem; ou um homem apaixonado por você, e que casaria com você embaixo da ponte, e alguém com quem você nem sonharia com cerimônias [elas seriam naturais...] tamanha seria a sua vontade de casar com ele sozinha embaixo de uma Jabuticabeira?

Veja bem. Se você o amasse mesmo, você estaria triste, muito triste mesmo, mas amando a honestidade dele para com você, e, mesmo em dor, abençoando-o de coração.

Qualquer coisa diferente disso não é amor!

Assim, unamo-nos em oração de gratidão a Deus por menos um equivoco cometido em nome da Etiqueta, da ética, e da sociedade já informada de que o que não era, iria ser… — mas apenas para inglês ver.

Você me compreende com o coração?

Se tivesse sido com minha filha eu agradeceria ao rapaz!

Receba meu carinho e a certeza de que tudo isto vai fazer você melhor, mais madura e mais amante da verdade.

Portanto, nem queira saber por que ele decidiu não casar. O silencio dele é a resposta. Contente-se em Deus; e coma no “pratinho” da vontade Dele.

E mais: enxugue as lagrimas e olhe para frente. Você ainda não viu nada…

Nele, que nos salva de muitos dos nossos sonhos,

Caio

Versão do Noivo

Eu sou o rapaz que cancelou a cerimônia. Minha noiva foi simplista ao dizer o que ocorreu. Na verdade, ela não tem culpa nenhuma, o louco sou eu.

A culpa é minha, o surto é meu, a insegurança e o medo são única e exclusivamente meus.

Pastor, casei-me a primeira vez nos idos dos anos oitenta, com uma moça da igreja que, naquela época, como você bem sabe, os casais casavam-se muito rapidamente até em virtude da repressão sexual, repressão de toda e qualquer manifestação da insatisfação com aquele sistema religioso. Desta forma casei-me com uma mulher que nem sabia se gostava ou não.

Todos os meus amigos estavam se casando…

Desta forma, casei-me na inércia do povo da igreja. Na pressão de um “pastor” altamente depressivo e autoritário.

Na primeira semana descobri que tinha cometido um erro enorme. Éramos completamente diferentes. A única coisa que tínhamos em comum era a fé (hoje
questiono se a forma era realmente idêntica). Fiquei 16 anos casado até encontrar a pessoa que amo, a pessoa mais importante da minha vida. Com
minha ex-mulher tive filhos, deixei o “barco” correr e parafraseando um pagodeiro.. Deixei a vida me levar.

Quando conheci minha noiva, que agora deixou de ser, fiquei desnorteado porque não sabia o que era o amor de Cantares. Descobri com ela. Quando
percebi que tal sentimento era como um dique de uma represa prestes a explodir pensei: Meu Deus! Vou me apaixonar por uma mulher loucamente e não
sei o que fazer…

Assim, separei, enfrentamos barras enormes junto à família dela, junta a minha, junto aos meus filhos, aos colegas de trabalho, aos amigos que eram
comuns, etc. e tal. Passamos momentos árduos na esperança de atingirmos e nosso momento supremo, ou seja: o casamento.

Creio que Deus traçou o nosso caminho com pedras pontiagudas.

Aí Pastor, depois de tudo acertado, a família dela me acolhendo, os amigos torcendo…

Há mais ou menos uns quatro meses angustiei-me. Uma tristeza daquelas que o coração chega quase a parar. Eu não sabia o que era e até agora não sei
dizer exatamente o que me ocorreu. Sei que se instaurou um medo, um pânico, uma vontade de morrer enorme.

Ela, alegre, altiva, sorridente, feliz, cheia de planos…

Eu triste, cabisbaixo, desanimado, inseguro, morrendo de medo daquilo que eu mesmo não sei o que é.

Desta forma, cancelei a cerimônia. Eu mesmo. Mesmo tendo-a ferido de morte.

Você nem imagina o que ela está passando, nem de longe. Posso comparar uma espécie de morte em vida. Você, também, nem imagina o que eu estou passando, pois depois de ter tudo o que eu queria, troquei os pés pelas mãos e caí no mais profundo vale da solidão. Isto mesmo. Agora sei o que significa o “vale da sombra da morte”.

Pastor, sou um homem sozinho. Já não tenho minha mãe, mulher forte, mulher de pulso que, se estivesse viva, nada disto teria ocorrido, pois ela iria
estar comigo até no altar. Não tenho mais meu pai, meus irmãos pouco falam comigo, meus filhos (mesmo que não gostassem da minha noiva) tomaram a dor dela com similaridade da dor da mãe e me chamam de louco, no trabalho, por todos os amigos a conhecerem (ela encanta a todos) não querem nem mais encontrar comigo.

Assim, estou como Davi no seu pior momento.

Nestes momentos o vencido se faz muito presente. Apareceram conjecturas que não são verdades, que não são as minhas verdades, que não aconteceu da forma com que todos estão comentando.

Aí minha loucura aumenta, aumenta muito. Eu mesmo fico me questionando… Aconteceu isto mesmo?

Só mais dois detalhes. Há anos atrás recebemos de uma profetiza profecias:

1) Que eu passaria o meu pior momento com ela (aconteceu em 2004);

2) …(também aconteceu em 2005);

3) Que ela ficaria magra, pesando perto dos sessenta e poucos quilos e que eu a carregaria no colo (aconteceu em 2006 e nunca imaginaríamos que poderia acontecer);

4) Que ela passaria o pior momento da sua vida comigo (esta acontecendo agora);

5) Que, após esta turbulência seriamos felizes, muito felizes e que teríamos filhos;

6) Que meus últimos momentos seria junto dela.

Pastor, como vê, as profecias estão concretizando quase que na totalidade.

Todas elas porque a pessoa que nos deu era, verdadeiramente, uma serva do Deus vivo.

Finalizando, ela não quer terminar, quer continuar, mesmo enfrentando o Tsunami que se abateu sobre as nossas vidas. Ela diz que me ama e que está comigo para o que der e vier.

Estou sem forças, medicado por um psiquiatra competente, tomando remédios mil. Perdi a vontade de viver, perdi o significado de tudo o que eu mais quis.

Perdi tudo.

Aí está Pastor a real versão, a meu lado “sujo” da página, da incompetência, da fraqueza.

Ore por mim.

Resposta:

Meu amado mano: Graça e Paz!

Primeiramente gostaria mesmo de poder concordar com você quanto ao fato de que eu não tenho idéia do que você e ou ela estão passando. Quem me dera meu pior dia tivesse sido ainda assim como esse…

Não! Eu sei…! E sei o que você graças a Deus não sabe e não saberá acerca da perversidade que acomete milhões em horas assim!

Sobre o que o ocorrido, eis o que penso com simplicidade e objetividade:

Na dúvida nunca se deve fazer nada, mesmo que a dúvida seja fruto de um trauma, de uma fobia, de pânico sem chão e sem causa no real-hoje.

Lendo o seu lado da história, continuo a dizer a ela o que disse; pois, se houve hiper-simplificação da parte dela, tal coisa revela a simplificação do significado profundo da conjugalidade para ela também.

Ou vocês nunca pensaram que um casamento que se tenta erguer sobre um outro que acabou em razão dele – já nasce sob grande stress e profundas chances de dar errado?

Ora, se de um lado você está traumatizado e com Síndrome do Pânico de Casamento; de outro lado, ela está vivendo a Síndrome de Cinderela, crente que as coisas da conjugalidade são resolvidas com a cerimônia de casamento — óbvio que esta minha afirmação é uma “simplificação”; mas na carta que a ela escrevi deixei claro o que penso que nela deve amadurecer acerca disso.

Assim, temos de um lado uma noiva neurótica e, de outro lado, um noivo paranóico.

A neurose da noiva é o casamento. A paranóia do noivo é casar-se. A neurose cria a obrigação do fazer. A paranóia gera o pavor de fazer errado e, por isso, a pessoa vê tudo conspirar contra as chances de dar certo.

Entretanto, isto ainda é uma hiper-simplificação!

De fato, há bem mais coisas pertencendo ao que aconteceu:

1. Você ficou traumatizado com a idéia de casamento. Talvez, olhando para trás, você mesmo identifique na base das crises que vocês já tiveram antes, essa insegurança presente em tudo; e, por vezes, talvez você mesmo tenha usado outros temas como álibis para criar as situações que inviabilizassem o casamento ainda que isso lhe fosse inconsciente.

2. Veja também que tanto o seu 1º casamento como este, foram ambos objeto de intensa participação “familiar e comunitária”. Ou seja: é gente demais no casamento de vocês.

3. Ora, casamentos assim, comunitários, são umas desgraças. Casamento já difícil sendo apenas feito de dois — imagine com essa “nuvem de testemunhas”?

4. Suspeito que seu pânico também tenha vários desdobramentos:

4.1. O casamento anterior e o trauma que deixou;

4.2. A culpa do casamento anterior; pois, segundo entendi você terminou o 1º casamento, deixando os filhos, para ficar com ela;

4.3. Assim, o “pão de Gideão” voltou sobre você como pânico e medo. Porém, ele decorre muito dos aspectos acima mencionados;

4.4. A leveza dela em relação a casar, em contraposição à sua angustia e paranóia acerca “do manter o casamento”, aflito pela possibilidade de ter que passar por tudo outra vez caso não desse certo — pode ter feito você pensar e sentir que esse casamento só estava sendo percebido nas implicações de gravidade do ato por você; e, assim, você pode ter tido a crise de pânico;

A tal da profecia [me perdoe dizer “a tal da profecia”] é perigosíssima numa hora como essa.

Explico:

1) Induz os acontecimentos; conforme você mesmo declarou: “Pastor, como vê, as profecias estão concretizando quase que na totalidade. Todas elas porque a pessoa que nos deu era, verdadeiramente, uma serva do Deus vivo”. Não ande sobre o chão das profecias. A seguir a lógica profética, volte para ela e consume o desejo da profetiza; pois, falta pouco…

2) Tira o discernimento do coração, pois, na mesma hora, faz a pessoa transferir o ocorrido para a conta de Deus [“Creio que Deus traçou o nosso caminho com pedras pontiagudas.”]; ao invés de fazer a pessoa olhar para dentro de si mesma e perguntar: “Existe em mim uma profecia de amor e de coragem em relação a esta mulher? Eu a amo mesmo? Ou mais uma vez estou sendo levado e conduzido?” Aliás, você disse outra coisa que muito me preocupou: “Já não tenho minha mãe, mulher forte, mulher de pulso que, se estivesse viva, nada disto teria ocorrido, pois ela iria estar comigo até no altar.” Ou seja: você até admite que o que lhe faltou foi alguém para dizer: “Você já chegou até aqui, então, meu filho, você irá até o fim”. Veja como o coração fica sem discernimento próprio e prefere se entregar aos cuidados e determinações de alguém — fosse sua mãe ou uma profecia.

Agora…

A referencia que você fez a ter conhecido com ela o amor de Catares; ou seja: feito de sentimentos belos e poéticos e de desejo ardente — também me deixou preocupado, não com o fato, mas com o que ele possa significar para você.

Sim! Porque caso você tenha tido nela a projeção de seus sonhos de homem em relação a ter uma mulher em plenitude [o que você ainda casado provou nela e com ela], a situação fica ainda mais complicada interiormente.

Veja:

Você casou a 1ª vez para poder transar e para poder ser normal conforme os “amigos, a mãe, a igreja, e todo o mundo”. Mas não havia amor, e, portanto, você se irrealizou em tudo. Então, casado, você encontra com ela e se apaixona; e põe fim ao casamento por causa dela; e carrega um ônus imenso perante os seus, e os dela também; pois, entre os seus, você era o canalha adúltero e apaixonado; e, diante dos dela você era um canalha saindo de uma e entrando em outra… — só que com a filha deles.

Brigas, desencontros, medos, culpas, auto-boicote, vicio em dor, medo de felicidade, etc. — passaram a habitar você.

Entretanto, pelo tempo, as coisas se acalmaram junto aos dela, e, assim, surgiu a chance do ilícito se tornar licito perante eles: o casamento.

A questão é que sua alma sempre duvidava se o que tinha unido vocês era o amor entre vocês ou a sua frustração como homem casado e sem amor no casamento anterior.

Ora, toda hora isto acontece; especialmente quando alguém termina um casamento, com filhos, e o faz pela paixão projetada sobre outra pessoa.

Desse modo, pelas circunstancias, a alma realmente não sabe se ama ou se amou para ficar livre do desamor no qual vivia. Em tais circunstancias a alma teme estar abraçando uma projeção, ainda que o dono dela, da alma, diga: “Até agora eu não sei o que é…”

Ora, por tudo isso, e mais um pouco, é que acho o seguinte:

1. Você não deve tomar nenhuma decisão unilateral; tipo: “Ela me quer, eu vou…” Não! Lembra da mamãe? “Se estivesse aqui me levaria até ao altar?” Pelo amor de Deus! Não se trate mais assim. Se você for, que seja porque você quer, e não porque ela topa apesar do Tsunami.

2. Você deve dar um tempo; se tratar; procurar um bom terapeuta; não ficar ouvindo os “amigos”, mas a sua alma, em verdade; e deixar que seu coração silencie. Pra quê pressa? Você está decidindo algo supostamente para a vida inteira. Então, calma!

3. Se você concluir que a ama [mesmo], case seja feliz [sem nunca esquecer seus filhos; pois, não há benção de Deus para pais desnaturados]. Mas se concluir que ela foi a “projeção” que resultou de sua infelicidade no 1º casamento, por mais que você goste dela, a ame de certo modo especial, sinta atração por ela, ou qualquer outra coisa, saiba: não é ainda suficiente para bancar uma relação sadia e durável.

4. Mas não tema chamar pelo nome os seus sentimentos e não tema viver com coragem baseado na verdade deles; pois, a vida é sua; e nenhum de seus amigos irá vivê-la por você.

Quanto aos “seus amigos”, fique por hora longe de todo mundo que deu mais valor à cerimônia não ocorrida do que aos sentimentos que levaram você a tal angustiada decisão.

“Amigos” assim são piores que a maldade numa hora dessas!

Por último, seja qual for o resultado, não participe nunca mais de nenhum casamento comunitário. Se você seguir com ela ou com quem quer que seja no futuro, que seja só você e “ela”; sem as ingerências desse bando de descomprometidos com a verdade, mas apenas com significados sociais.

Ninguém é obrigado a amar ninguém conjugalmente caso não ame!

Por outro lado, ninguém se torna virtuoso apenas por nos amar. Aliás, tem muita gente que casa apenas porque a grande virtude do outro é amar a gente de qualquer modo ou forma; o que faz de tal amor um amor a ser amado…; mas isso ainda é amor pelo amor recebido; é divida de gratidão que assola os fracos; é missão fraterna; é a paga do endividado!

Pense no que lhe falei e ore. Busque a verdade em você. E não se balize pela opinião de ninguém. Aliás, a minha opinião é apenas esta: você tem que saber o que é por você mesmo; e tomar as suas próprias decisões longe da saia da mamãe.

Você disse: “Ela quer de qualquer modo!”

Pergunto: “Você quer de qualquer modo?”

Pense e responda em paz!

Para mim você continua a ser um rapaz bom procurando a verdade e desejoso de não errar. Ao mesmo tempo em que vejo que hoje [pelo menos hoje], você não está e não se sente apto a casar. Portanto, não se force; pois, não estamos falando em dar uma mão a uma tia querida que deseje botar um piano de cauda no 10º andar e precisa de uma força…

Entendeu?

Se entendeu… — então fique calmo!

Nele, que prefere qualquer verdade mais feia a qualquer coisa bela, porém feita em desfaçatez e engano,

Caio
Fonte : caiofabio.com

“… viver juntos (“e vamos esperar para ver como isso funciona e aonde vai nos levar”) ganha o atrativo de que carecem os laços de afinidade. Suas intenções são modestas, não se prestam a juramentos, e as declarações, quando feitas, são destituídas de solenidade, sem fios que prendam nem mãos atadas. Com muita frequência, não ha congregação diante da qual se deva apresentar um testemunho nem um todo-poderoso para, lá do alto, consagrar a união. Você pede menos, aceita menos, a assim a hipoteca a resgatar fica menor e o prazo de resgate, menos desistimulante. O futuro parentesco, quer desejado ou temido, não lança a sua longa sombra sobre o “viver juntos”. “Viver juntos” é por causa de, não afim de. Todas as opções mantêm-se abertas, não se permite que sejam limitados por atos passados.
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As pontes são inúteis, a menos que cubram totalmente a distância entre as margens – mas no “viver juntos” a outra margem esta envolta numa neblina que nunca se dissipa, que ninguem deseja dissolver nem tentar afastar. Não há como saber o que se vai ver quando (se) a névoa se dispersar – nem se de fato existe alguma coisa encoberta. A outra margem esta mesmo lá, ou será ela apenas uma fada morgana, uma ilusão criada pela neblina, uma fantasia da imaginação que nos faz ver formas bizarras nas nuvens que passam?
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Viver juntos pode significar dividir o barco, a ração e o leito da cabine. Pode significar navegar juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem. mas nada tem a ver com a passagem de uma margem à outra, e portanto seu propósito não é fazer o papel das sólidas pontes (Ausentes). Pode-se manter um diário ed aventuras passadas, mas nele há apenas uma ligeira referência ao intinerário e ao porto de destino. É possível que a neblina que cobre a outra margem – desconhecida, inexplorada – se suavize e desapareça, que venham a emergir os contornos de um porto, que se tome a decisão de atracar, mas nada disso é, nem deve ser, anotado nos registros de navegação.
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A afinidade é uma ponte que conduz ao abrigo seguro do parentesco. Viver junto não representa essa ponte nem o trabalho de construí-la. O convívio do “viver juntos” e a proximidade consanguínea são dois universos diferentes, com espaço-tempos distintos, cada qual um iniverso completo, com suas leis e lógicas próprias. Nenhuma passagem de um para o outro foi previamente explorada – embora se possa, fortuitamente, defrontar-se ou chocar-se com um deles. Não há como saber, pelo menos com antencedência, se viver jutos acabará se revelando uma via de tráfego intenso, ou um beco sem saída. A questão é atravessar os dias como se esta diferença não contasse, e portanto de uma forma que torne irrelevante o problema de “colocar os pingos nos Is”
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As redes de parentesco não podem estar seguras de suas chances de sobrevivência, muito menos calcular suas expectativas de vida. Sua fragilidade as torna ainda mais preciosas. Elas agora são tênues, sutis, delicadas; provocam sentimentos de proteção; fazem com que se desejem abraça-las acariciá-las e mimá-las; anseiam por serem tratadas com um carinho amoroso. e não são mais arrogantes e pretensiosas como costumavam ser quando nossos ancestrais explodiam e se rebelavam contra a rigidez e a viscosidade do anelo familiar. Não se sentem mais seguras de si mesmas – a contrário, estão dolorosamente conscientes de como um simples passo em falso pode ser fatal…
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Paradoxalmente – ou no fim nem tanto – os poderes de atração e enlace da parentela ganham impulso à medida que o magnetismo e o poder de controle da afinidade diminuem.
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De modo que aqui estamos, manobrando, vacilantes e desconfortáveis, entre dois mundos notoriamente distantes um do outro e com pendências entre si, mas ambos desejáveis e desejados – sem passagens claramente traçadas, para não falar de caminhos trilhados entre ambos.
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Retirado do livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman
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Veja Também Amor Líquido 1
E veja o texto abaixo Contrato de Casamento e tire suas próprias conclusões.

Na semana passada comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de congratulações de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: “Coisa rara hoje em dia”. De fato, 40% de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a promessa de amar o outro para sempre.
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Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato.
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Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo “vou sempre amar você”, como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. “Eu amarei você para sempre” deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro.
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Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível. Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher “ideal” para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu “verdadeiro amor” estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar? O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas.
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As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: “Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia”. Homens e mulheres que conheceram alguém “melhor” e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento.
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O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros “melhores”. Eles aprendem a conviver com os pais que têm.
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Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.
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Stephen Kanitz

Meus amigos separados não cansam de me perguntar como eu consegui ficar casado trinta anos com a mesma mulher. As mulheres, sempre mais maldosas que os homens, não perguntam a minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.

Os jovens é que fazem as perguntas certas, ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo.

Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário. Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas, dito isso, minha resposta é mais ou menos a que segue.

Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar. Ninguém agüenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade, já estou em meu terceiro casamento – a única diferença é que me casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano, está em seu quinto, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes do que eu.

O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher. O segredo no fundo, é renovar o casamento, e não procurar um casamento novo. Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal. De tempos em tempos, é preciso renovar a relação. De tempos em tempos, é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, voltar a se vender, seduzir e ser seduzido.

Há quanto tempo vocês não saem para dançar? Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo como se seu par fosse um pretendente em potencial? Há quanto tempo não fazem uma lua de mel, sem os filhos eternamente brigando para ter a sua irrestrita atenção?

Sem falar nos inúmeros quilos que se acrescentaram a você, depois do casamento. Mulher e marido que se separam perdem 10 quilos num único mês, por que vocês não podem conseguir o mesmo? Faça de conta que você está de caso novo. Se fosse um casamento novo, você certamente passaria a freqüentar lugares desconhecidos, mudaria de casa ou apartamento, trocaria seu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo e a maquiagem. Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge.

Vamos ser honestos: ninguém agüenta a mesma mulher ou marido por trinta anos com a mesma roupa, o mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas. Muitas vezes não é sua esposa que está ficando chata e mofada, são os amigos dela (e talvez os seus), são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração. Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo, que é justamente um dos prazeres da separação. Quem se separa se encanta com a nova vida, a nova casa, um novo bairro, um novo círculo de amigos.

Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso. Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar. Isso obviamente custa caro e muitas uniões se esfacelam porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento. Mas, se você se separar, sua nova esposa vai querer novos filhos, novos móveis, novas roupas, e você ainda terá a pensão dos filhos do casamento anterior.

Não existe essa tal “estabilidade do casamento”, nem ela deveria ser almejada. O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos. A melhor estratégia para salvar um casamento não é manter uma “relação estável”, mas saber mudar junto. Todo cônjuge precisa evoluir, estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensando fazer no início do casamento. Você faz isso constantemente no trabalho, por que não fazer na própria família? É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo.

Portanto, descubra o novo homem ou a nova mulher que vive ao seu lado, em vez de sair por aí tentando descobrir um novo e interessante par. Tenho certeza de que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças. Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão: por isso, de vez em quando é necessário casar-se de novo, mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par.

Stephen Kanitz

Tem gente que pensa que gente se entrega a outra gente e nada acontece. Tem gente que se dá a outra gente sem saber que a gente é feita de gente. Tem gente que se ilude com a idéia de que gente não transfere gente para outra gente. Tem gente que não entende que gente é contagiada quando se faz ‘um’ com outra gente. Tem gente que pensa que é brincadeira quando Deus diz pra gente não misturar o espírito com o espírito de certas gentes.

Sim, gente passa gente pra gente!

“Serão os dois uma só carne…”

“Faz-se um com ela…”

“Grande é este mistério…”

Paulo disse que na união conjugal tais ‘misturas’ atingem seu clímax para o bem, mas também pode ser para o mal.

Ele diz: “…dela cuida como de sua própria carne…”

E mais: “… posto que já não são dois, porém um…”

E em outro lugar: “… a mulher crente, santifica o marido incrédulo… de outra sorte seriam impuros…”

Eu creio em vampiros psicológicos, em seres que comem você por dentro, em relacionamentos que são como o ‘bicho da goiaba”, o amazonense “tapurú”.

Ninguém se une a ninguém sem contágio, para o bem ou para o mal.

Uniões têm o poder de mudar interiores, alterar almas, atingir o espírito.

Se alguém sai de casa e contrata uma prostituta, e faz isso uma vez, corre o risco de contaminar-se fisicamente, e, pode desenvolver um vício para a alma.

Mas se alguém sai de casa sempre para se prostituir, essa pessoa, mesmo que mude de prostituta todas as vezes, será contaminada, não necessariamente no corpo, e não necessariamente pelo espírito de uma delas, mas com certeza o será pelo “espírito de prostituição”, que não é algo muito forte na prostituta—que não se entrega por prazer—, mas o é na alma do freguês, visto que ele sim, procura ‘algo’ com avidez física e psicológica.

Amizades longas com pessoas ruins podem acabar com a gente. Mas amizades curtas e breves também têm o poder de contaminar, e desviar um ser humano de seu caminho.

Nada, porém, é mais profundo no seu poder de contágio do que uma união conjugal.

Nesse caso, se as pessoas são de espírito bom, mesmo que não se amem, provavelmente não se façam mal.

Mas se ambas ou apenas uma delas for de ‘outro espírito’, então, é muito difícil que o parceiro não seja contaminado na alma.

Por esta razão nada há melhor do que a união de duas pessoas do mesmo bom espírito, especialmente se tiverem a ventura de se encontrar bem cedo na vida, e se manterem em união por toda a vida.

Tais pessoas são as mais leves, livres, felizes, e simples!

Há quem queira muita ‘variedade’…

Meu Deus, que ilusão!

Mal sabem que a tal ‘variedade’ vai deixando gambiarras penduradas pela gente, como fios desencapados e ‘em curto’.

Se pudéssemos ver espiritualmente tais pessoas, as veríamos como troncos cheios de cabeças, braços, olhos, e pernas.

Sim, completamente monstrificadas…

Simbiotizadas de tantas formas e de tantas maneiras, que elas mesmas assustar-se-iam se pudessem se enxergar.

Mas não é preciso enxergar para ver. Basta que se olhe para dentro do coração, para as legiões de seres…, para sentimentos que cada vez mais se complexificam na alma, para mentes cada vez mais compartilhadas pelos entes psicológicos que foram sendo agregados no caminho.

Por isso o homem de coração simples é bem mais feliz do que aquele que sofisticadamente se auto-designa de complexo.

Quando a sabedoria ordena ao jovem que guarde puro o seu coração, que simplifique os seus caminhos, e que seja focado em seus sentimentos, ela quer apenas dizer o que acabei de expor.

Sim, não é nada moral, como se pensa. Mas sim é algo que tem a ver com a saúde do ser, com a paz para viver, com a unicidade existencial, com a pureza psicológica.

Hoje, porém, é moda ser infeliz, complexo, sensível (significando ‘sofrido’), indecifrável, misturado, multiuso…, de tal modo que essa pessoa tem que ter ‘seu próprio analista’.

Toda gente é uma ‘mistura’ de todas as gentes que passaram pelo coração, para o bem e para o mal.

Nessa viagem da formação do ser há aquelas pessoas que são inevitáveis para nós, como os pais e os irmãos—nossos primeiros e involuntários casamentos na existência.

Ora, muitos são os estragos que essa ‘mistura’ pode causar quando mal discernida.

As piores misturas, todavia, são aquelas que escolhemos—consciente ou inconscientemente—para viver e fazer parte da gente pela via da união.

Uniões são coisa muito séria…

Sim, elas podem nos erguer ou nos afundar; podem nos abençoar ou nos amaldiçoar; podem nos trazer paz ou podem nos trazer angustias; podem nos salvar ou nos destruir.

Por isso, se você está só, ou vindo de algo que como ‘união’ fez mal a você, não tenha pressa. Abrace sua solidão com respeito e dignidade, e agradeça a Deus o livramento. E não sucumba à tirania de se fazer acompanhar. Afinal, veja bem quem vai lhe ‘acompanhar’.

Mas se você está lendo isso e pensando: “E agora? Depois de tanto ‘experimento’, ainda haverá esperança para mim?”

Eu lhe digo:

Sempre há esperança. O Espírito Santo é real. O amor de Deus limpa e cura. Mas o homem haverá de ser curado enquanto discerne cada pedaço de outros que foram largados no baú de sua alma. E terá que ter a coragem de discerni-los e jogá-los para fora de si mesmo.

Ora, tal cura implica em discernir ‘qual carne e qual sangue’ fazem parte de nossa ‘comunhão’ existencial e espiritual. E obviamente isto só tem a ver com quem permitimos entrar e ter algum pedaço de nós, especialmente em uniões.

Tal exercício de discernimento é doloroso, porém libertador.

E se você discernir tais espíritos na presente constituição de sua alma, mande-os sair… pois eles sairão.

Depois disso, todavia, encha a sua ‘casa’ do que é bom, e não a deixe vazia, posto que essas coisas se vão… mas de vez em quando voltam a fim de ver como anda o lugar antes ocupado, conforme nos ensinou Jesus, tanto sobre espíritos demônios, quanto também acerca de qualquer espírito, inclusive os espíritos dos humanos que já nos possuíram ou tentaram faze-lo.

Esses ‘entes’, todavia, cansam de voltar. E é assim que se vai alcançando paz mais e mais…

Ora, é por tudo isso que lhe peço:

Veja bem com quem você está se unindo.

E mais:

Veja bem que espíritos você contraiu durante vínculos adoecidos.

E, assim, trazendo todas as coisas para a luz, deixe que a verdade expurgue de seu ser aquilo que não é você.

Caio Fabio

Retirado do site http://www.caiofabio.com

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Benedict Carey

As cenas domésticas que lentamente sufocariam o casamento não foram “cenas” no sentido habitual, mas silêncios, negligências imaginárias, temores particulares que passaram sem ser comentados. Ela pedia que ele lavasse a louça depois do jantar e sentia-se estremecer quando ele deixava para depois, como se fosse uma rejeição.

Ou ela se vestia para sair e depois lutava contra um temor crescente, com o passar dos minutos, pois ele não dizia que estava bonita. “Eu nunca disse nada, mas tinha essa necessidade de aprovação, essa terrível carência que ele não conseguia entender”, disse Ronni Weinstein, 61, uma terapeuta que mora na região de Chicago, sobre seu ex-marido.

De fato, ela acrescentou, depois aprendeu que seus surtos de dependência poderiam ter sido usados para unir o casal, em vez de prejudicá-lo. “É isso que os casais saudáveis aprendem a fazer”, disse. “Depender voluntariamente um do outro e decidir quem está fazendo o quê pelo relacionamento.”

A carência tem uma face conhecida: a amiga íntima que está constantemente pedindo aprovação, conselhos, ajuda para lidar com o computador. A adulta bem-sucedida que pula de relação em relação, fazendo a gueixa para cada novo parceiro. A mulher agredida que tem medo de ir embora. Mas só recentemente os pesquisadores começaram a perceber que se de certas formas a dependência pode minar a saúde mental, de outras pode representar um valioso apoio social.

Em um extremo está uma necessidade desesperada de atenção – um problema constante que os psiquiatras diagnosticam como distúrbio de personalidade dependente. Em formas mais brandas, a dependência pode parecer uma carência aborrecida. Mas também pode ser um afeto protetor que cimenta os relacionamentos românticos em tempos de estresse. É o modo como as pessoas administram os surtos de dependência que determina o efeito do comportamento carente nos relacionamentos, segundo pesquisadores.

“Existem pessoas dependentes que entram em pânico com facilidade, que telefonam para um amigo ou para a mulher 15 vezes por dia, minando o relacionamento, e depois há aquelas que aprenderam a modular seus impulsos”, disse o dr. Robert F. Bornstein, psicólogo na Universidade Adelphi e co-autor, com sua mulher, Mary A. Languirand, de “Healthy Dependency” [Dependência saudável] (Newmarket Press, 2003). “Essas pessoas podem ter necessidades de dependência muito intensas”, ele continuou, “mas desenvolveram técnicas sociais, aprenderam a fazer os outros se sentirem bem em ajudá-las. E isso faz toda a diferença.”

Um cabo-de-guerra entre a dependência persistente e a vulnerabilidade carente é visível desde a infância. Nos chamados estudos de ligação afetiva, crianças pequenas ou primatas que confiam no afeto de suas mães tendem a ser confiantes quando exploram um espaço desconhecido ou encontram um estranho.

As que são menos seguras muitas vezes se agarram às mães em situações novas, principalmente as temíveis. “Essa é uma dinâmica absolutamente fundamental que sustenta todas as nossas relações interpessoais, assim como os diagnósticos psiquiátricos”, disse o dr. Sydney Blatt, professor de psicologia e psiquiatria na Universidade Yale.

Os pesquisadores medem a força dos traços de dependência fazendo as pessoas classificarem o quanto endossam certas opiniões, como “Depois de uma briga com um amigo, devo fazer as pazes assim que possível”; “Sou muito sensível aos sinais de rejeição dos outros”; ou “Tenho muita dificuldade para tomar decisões sozinho”.

Nos estudos, as pessoas que têm notas altas nesses testes também tendem a classificar seus pais como autoritários ou excessivamente protetores (ou um de cada). “A mensagem quando a pessoa está crescendo é: ‘Você é frágil, você é fraco, precisa de alguém forte para cuidar de você'”, disse Bornstein.

Essa criação leva muitas pessoas, conforme amadurecem, a buscar pares igualmente dependentes entre amigos, colegas e parceiros românticos. O padrão persiste pelo menos em parte porque é freqüentemente recompensado.

Em um estudo recente, psicólogos classificaram 48 homens e mulheres que estudavam no Gettysburg College na Pensilvânia sobre medidas de dependência, e calcularam suas notas médias. Depois de controlar as notas nos exames escolares dos estudantes e a dificuldade de seus currículos, entre outros fatores, os pesquisadores descobriram, para sua surpresa, que os estudantes que tinham notas mais altas em medidas de dependência se saíam significativamente melhor nos estudos, em média, do que os que eram mais auto-suficientes.

Um motivo provável, segundo os autores, era que os estudantes dependentes tinham muito maior probabilidade de dizer que buscavam a ajuda dos professores para os trabalhos do curso.

Em outro experimento, apresentado em janeiro na reunião anual da Associação Psicanalítica Americana, psicólogos da Universidade de Louvain, na Bélgica, mediram traços de dependência, satisfação nos relacionamentos e níveis de conflito em 266 adultos em relacionamentos duradouros. Os pesquisadores descobriram que os parceiros dependentes tinham notas significativamente mais altas em satisfação do que os mais auto-suficientes – mas só quando os casais estavam brigando.

Pelo menos em curto prazo, as características de dependência pareciam proteger os relacionamentos em tempos de crise, sugerem os autores. Temendo perder o relacionamento, “os indivíduos mais dependentes podem realmente se comportar de maneira mais positiva com seus parceiros, como ser mais cordatos e mais amorosos”, disse Bénédicte Lowyck, psicóloga que liderou o estudo.

Em longo prazo, disse Lowyck, não está claro se esses instintos protetores alimentam o relacionamento ou o prejudicam. A resposta dependerá do casal, segundo especialistas, e provavelmente do conteúdo da dependência do parceiro: como ela é expressa, se a pessoa é generosa além de carente, flexível além de ansiosa.

Para distinguir diferentes matizes ou variedades de dependência, dois psicólogos, Aaron L. Pincus, da Pennsylvania State, e Michael B. Gurtman, da Universidade de Wisconsin em Parkside, aplicaram uma exaustiva bateria de questionários sobre dependência a 654 estudantes de psicologia. As notas classificaram tudo, de confiança social a preferência por solidão e necessidade de agradar aos outros. A análise das respostas pelos psicólogos sugeriu que há três variedades diferentes de padrões de comportamento dependente.

Um é definido predominantemente pela submissão (“Eu não tenho o que é necessário para ser um bom líder” ou “Sou facilmente convencido em uma discussão”). Outra se caracteriza principalmente pela explorabilidade (“Tenho medo de ferir os sentimentos das pessoas” ou “Eu faço coisas que não são do meu interesse para agradar aos outros”). E uma terceira, que os psicólogos chamaram de dependência amorosa, baseia-se numa necessidade de conexão social (“Ficar isolado dos outros tende a levar à infelicidade” ou “Depois de uma briga com um amigo, devo fazer as pazes assim que possível”).

As pessoas que lutam com uma necessidade exagerada de aprovação dos outros podem exibir momentos dos três tipos. “Mas essa dependência amorosa é a mais adaptativa”, disse Pincus. “São pessoas que formam ligações muito fortes, que não estão felizes se não estiverem cercadas de amigos e da família” e têm menor probabilidade de tropeçar em suas próprias ansiedades.

Weinstein, a terapeuta de Chicago, disse que em mais de 30 anos de prática ela viu dezenas de casais em que a submissão e a exploração puseram fim a casamentos. E estudos atuais sugerem que em relacionamentos muito perturbados e abusivos o agressor, assim como a vítima, muitas vezes tem um medo dependente de perder o relacionamento.

“Esse é o tipo de casal em que o marido pode dizer: ‘Você vai fazer compras sozinha? Vai me deixar aqui sozinho? Você não pode fazer isso. Olhe, vou levá-la de carro”, disse Weinstein. “E esse tipo de intercâmbio que parece trivial pode se tornar muito exigente e até violento, por causa desse medo irracional do abandono.”

Terapeutas tarimbados podem ajudar as pessoas a administrar esses medos, mas há poucas pesquisas que orientem o tratamento. Em uma abordagem, as pessoas aprendem a identificar e modificar alguns hábitos de conversa que tornam suas interações com os outros tão voláteis.

Por exemplo, elas aprendem a reduzir o número de vezes que procuram aprovação em uma conversa – “Você não está dizendo isso, está?” ou “Você realmente quer dizer isso?” – e, eventualmente, a mudar o foco da conversa para o outro.

O paciente também pode aprender a diluir seus temores de perder o relacionamento aceitando algumas evidências do compromisso do parceiro: flores, jantares românticos, massagens nas costas. O parceiro também pode ajudar, pelo menos em casos de carência mais branda.

Os psiquiatras muitas vezes aconselham uma espécie de distanciamento simpático: reconhecer os medos da pessoa; oferecer um pouco de tranqüilidade; mas incentivar a pessoa a pelo menos experimentar interesses, hobbies ou hábitos que não girem em torno do relacionamento. E depois desligar o celular durante algumas horas.

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